Terça-feira, Julho 30, 2002
A frase em negrito foi enviada por Habacuque
A tristeza quando egoísta é lenta ao machucar você. As ligações são sempre atendidas por secretárias eletrônicas. Não adianta. Será que você não percebe que está sozinho? Que a única companhia que lhe resta é o travesseiro por entre as suas pernas? Que ninguém mais lhe dará um ombro se age como um kamikaze romântico? Agora não há com quem chorar. E, mesmo assim, levanta da cama pronto para mais um ataque. Domingo, três horas da tarde, o sol de inverno atraindo as pessoas às ruas em um repuxo de calor. Mas você quer mais. Não se contenta. Veste a sua melhor roupa. Faz a barba. Atravessa a pé os quilômetros que afastam você do sofrimento. E bate à porta do desprezo sem saber que o desprezo é inimigo do prazer. Você nem está surpreso com mais negativas. E por que deveria? Ouça os seus amigos, pelo amor de Deus. Pelo menos uma vez. Tire a sua roupa, tome um banho nu na fonte do parque, sinta a grama molhada gelar a sola dos seus pés. Beba mais cervejas, esqueça as garrafas de vinho. Beije a boca de uma estranha e sinta o gosto do desconhecido. Faça alguma coisa. Reaja. Porque um prazer qualquer curaria toda essa dor. Só você ainda não sabe disso.
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A frase em negrito foi enviada por Karine Lima
Os homens em sua vida eram como satélites. Surgiam, despareciam, ressurgiam. O para sempre é que não existia. Tanto o ficar quanto o ir embora. Estavam sempre seguindo a órbita do coração lunático que herdara da Titia Natália. Ah, a Titia Natália é que era assim, diziam as línguas afiadas de sua família, e olha o que aconteceu. É certo que a décima filha de sua avó havia morrido solitária em um apartamento cor de rosa em Copacabana. Mas, com certeza, levara consigo muito mais cheiros masculinos do que qualquer mulher do Rio de Janeiro. Então, pensava ela, por que temer? Mas em um mês de setembro, Artur não reapareceu como o esperado. Nos três primeiros dias ainda imaginou que as suas projeções matemáticas pudessem estar erradas. E uma semana inteira se passou. Nunca mais Artur iria voltar, choramingava ela. Jamais. Foi neste dia que o seu coração deixou de ser planeta para ser também um satélite. E nunca precisou ser chamada de titia.
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Segunda-feira, Julho 29, 2002
A frase em negrito foi enviada por Maria Madureira
Fechou a porta do banheiro devagar, já passava das três horas da manhã, se o João acordasse agora provavelmente iria pedir para colocar um desenho animado no vídeo, e tudo o que mais queria era poder tirar a maquiagem, vestir o seu pijama, deitar na cama e esquecer mais uma noite de corpos suados, gritos exagerados e notas de dinheiro colocadas sutilmente em sua bolsa, como se fosse um pedaço de papel com um número de telofone, ou um bilhete bobo para ler no outro dia, mas, por mais que tentasse, que fingisse, que recebesse um tipo de amor desesperado de homens que já não sabiam o que fazer com suas famílias, seus carros importados, suas reuniões intermináveis, por mais que prometesse que aquela noite seria a última, nada conseguia fazer com que esquecesse que, no fundo, o que queria era uma vida normal, um relacionamento ordinário, alguém que levasse João para jogar futebol, mas nada mais poderia fazer, a não ser lavar o seu rosto, e se transformar em uma mulher normal, uma mãe exemplar, sem batom, rímel, brilho, uma pessoa de cara limpa, mas havia algo de estranho em seu rosto, marcas que cremes, algodão e água não conseguiam retirar, e, quando o primeiro soluço chegou, ela percebeu que os olhos ainda estavam maquiados, sujos, sim, ela tinha os olhos imundos de lágrimas, mas tudo o que conseguiu fazer foi engolir o choro para não acordar João.
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Sexta-feira , Julho 26, 2002
A frase em negrito foi enviada por Ticiano
Encontraram-se na fila do cinema em uma tarde de domingo. Mais gordo, longe da imagem do adolescente franzino, Luís provavelmente passaria desapercebido ao olhar atento de Cecília. Mas a sua luta contra o saco de balas de goma, procurando pateticamente as vermelhas, não deixou dúvidas. Nervosa, deu um passo à frente e disse "Às vezes você não se pergunta por que diabos não existe um saco apenas com balas de goma vermelhas pra vender?". A voz imposta, de quem estudara teatro durante toda a sua vida, fizeram com que o rosto de Luís corasse. Olhou para trás, arqueou as sobrancelhas e, ato contínuo, sorriu com a boca cheia de saudade. "Nossa", ele falou, "há quanto tempo". Devolvendo o sorriso, Cecília o abraçou e repetia "Não acredito, não acredito, não acredito". "Não", ele disse, "quem não acredita sou eu, o que você tá fazendo por aqui?". Em resposta, ela apenas apontou para duas crianças que corriam por entre os displays dos filmes que iriam estreiar. "Caramba", Luís suspirou, "dois filhos". Cecília abriu os braços como se dissesse "é a vida", e depois fez a mesma pergunta. "Não, não vim trazer os meus filhos ao cinema aliás nem filhos tenho, tô a trabalho, tenho que escrever uma resenha sobre o filme", ele respondeu. "Ah", ela falou, "como sou burra, sempre leio os seus textos no jornal, e penso, putz, ele conseguiu o que queria". E quando notou que os dedos de Cecília estavam engordurados por causa da pipoca, Luís finalmente teve a exata noção do que estava acontecendo. "Não, não consegui o que queria", ele disse, "você sabe disso". Cabisbaixa, ela falou "É por isso que nunca procurei você nestes anos todos, porque você insiste no mesmo assunto". Com o olhar fixo nas duas crianças, tentando imaginar se seriam diferentes caso fossem seus filhos, Luís falou "Sabe, não posso sentir o cheiro de pipoca porque lembro de você, que sempre comia todas as suas pipocas antes de entrar no cinema, que tirava a gordura dos dedos no meu jeans". Cecília sentiu vontade de chorar, de pedir desculpas, mas não poderia pagar a vida inteira por uma bobagem que cometera na adolescência. Por isso, desejou que a fila andasse logo para que pudesse encontrar um refúgio no escuro. "Desculpa", ela disse, "desculpa por tudo, mas você também não precisa ficar todo dia lembrando do que aconteceu". Luís teve vontade de abracá-la, mas a fila começou a andar e apenas conseguiu citar um de seus cineastas prediletos. "Como diria Mario Peixoto", ele falou, "a recordação é um dos mais perfeitos poderes que a natureza concedeu ao homem". Ela retrucou "Mas a recordação não me trouxe de volta". Antes que as crianças corressem em direção à Cecília, Luís apenas teve forças para dizer "Não trouxe você de volta, é verdade, mas é ela que me mantém vivo". Os quatro entraram em silêncio no cinema, e Luís procurou sentar o mais distante possível de Cecília e seus filhos. Mas ela não resistiu, e tentou vê-lo pela última vez. E lá estava Luís, brigando com o saco de balas de goma, em busca de mais uma vermelha. O que Cecília não sabia, no entanto, é que ele nunca mais foi capaz de encontrar outra bala de goma vermelha como aquela que adoçava a sua boca em tardes de namoro no cinema.
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A frase em negrito foi enviada por San
Como se fosse uma personagem criada por uma cópia mal feita de Woody Allen, Mariana freqüentava as salas de cinema porque eram somente nelas que a sua vida fazia o mínimo de sentido. Sabia que este era o seu destino, a sua missão, o seu poder. Afinal, se a vida imita a arte, a arte naqueles dias estava pessimista demais. O mocinho não ficava mais com a mocinha. Viver feliz para sempre deixou de ser para sempre, muito menos feliz. E os roteiristas simplesmente esqueceram das cenas de beijos debaixo da chuva. "Tirar os beijos na chuva já é demais", pensava Mariana. Por isso, decidiu que era a hora de tomar uma atitude. Às sextas-feiras, quando a programação de cinema mudava, ela logo comprava o jornal e passava todo o seu final de semana em frente à tela gigante que, um dia, tantos sonhos e esperanças trouxera para o mundo. Mas agora não se limitava apenas a ser uma espectadora passiva. Mariana interferia na história. Quando o mocinho iria levar um tiro pelas costas, gritava "Watch your back!", e, logo Ben Affleck, Brad Pitt e George Clooney se salvavam das balas dos bandidos. E se Ethan Hawke continuasse com aquela cara de bebê sem perceber que Julie Delpy estava caindo de amores, dizia "Kiss her, she is in love with you, can't you see?", e pronto: a platéia era presenteada com um longo, longo, longo beijo. O pior era agüentar calada Julia Roberts desistir de Hugh Grant. Neste caso, Mariana soltava um berro implorando "Don't give up!", e então Julia olhava para trás e sorria apaixonada ao perceber que Grant ainda a esperava com o seu sotaque britânico. E assim, graças às palavras de Mariana, Hollywood voltou a ser Hollywood. Porque até o Woody Allen de verdade sabe: a verdadeira felicidade é acreditar que um dia você vai ter um final feliz.
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Quinta-feira, Julho 25, 2002
A frase em negrito foi enviada por Fabio Moraes
Uso a velha desculpa de que quero fumar e saio para o gramado. O arrependimento caminha em minha volta, mas não sei como consertar o que fiz. Sei que o olhar de Ana está acompanhando os meus passos quando Carla é quem deveria estar preocupada. Resisto ao desejo de olhar para trás e, por isso, abaixo a minha cabeça. E é neste movimento que, pela primeira vez durante a festa, enxergo a aliança que Carla escolhera para nós. Vejo a lua refletida no aro dourado e, imediatamente, a procuro no céu. Não sei se é o brilho, o excesso de branco, ou, quem sabe, a distância. Mas aos poucos a lua se confunde com o rosto de Ana. E então lembro de nossas conversas neste mesmo gramado. De nossas descobertas. Por que você apareceu em minha vida?, ela perguntava, por quê, se é com a minha irmã que irá casar? E eu apenas respondia com um abraço, e, sussurando em seu ouvido, prometia o mundo para Ana. A lua, os planetas, as estrelas. Agora, o céu está estrelado, mas ela não está aqui. Estendo o meu braço, como se tentasse alcançar o céu. Mas logo sinto o perfume de Carla em meu pescoço e a seda de seu vestido tocando a minha camisa. Não é romântico a gente aqui, abraçados sob as estrelas, no dia do nosso casamento?, ela pergunta e depois puxa o meu rosto para perto do dela. Nós nos beijamos. Fecho os meus olhos porque não suportaria saber que Ana está nos observando na varanda da casa. E, sim, vejo estrelas. Mas não passam de estrelas de quem acaba de ser nocauteado pela vida.
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A frase em negrito foi enviada por Dave Liv
Denise disse que não ligaria, mas esqueceu a sua calcinha no banheiro, assim como quem não quer nada, então não foi nenhuma surpresa quando o telefone tocou. Posso passar aí às sete, depois do trabalho?, ela perguntou, e sua voz parecia um sorvete de morango em dia de sol. Com a diferença que haviam apenas nuvens no céu, e a temperatura não passava dos dez graus centígrados. É, talvez não fosse uma má idéia, ele pensou já imaginando quantas camisinhas ainda restavam na gaveta do criado-mudo, e respondeu ok, passa lá pelas oito, vou no super, compro umas coisinhas, faço um jantar. Mal colocou o telefone no gancho e ouviu aquela melodia ridícula do celular. Claudinha chamando, leu no display. Atendo, não atendo, atendo, não atendo. Olhou para o relógio, seis horas, ainda dá tempo de um bate-papo antes de ir ao supermercado. Oi, Claudinha, tava com saudades, pensei que não fosse mais me ligar, falou. Ah, é que fiquei esperando que você me ligasse, ela resmungou, mas tudo bem, você é assim mesmo, já sabia da sua fama, mas não me importo, e queria muito te ver hoje, tava pensando em te convidar pra jantar aqui em casa, tomar um vinho, espantar o frio, algo assim. Pela quantidade de palavras que Claudinha despejou em poucos segundos, provavelmente estava muito nervosa. E, por isso, sentiu pena, e não conseguiu dizer não. Mas agora ele tinha um problema. Frio. Uma dúvida. Duas mulheres. Por onde começar? Sem saber o que fazer, folheou o jornal que estava em cima da mesa da cozinha. Nossa, hoje é a final da Libertadores, e eu esqueci completamente. E, então, assim tão subitamente, soube o que deveria fazer. Telefonou para a floricultura, encomendou um arranjo de rosas em forma de coração para ser entregue às oito horas, ditou um texto para o cartão, algo como Claudinha, meu amor, desculpe, mas meu pai teve outra crise de falta de ar, sabe como é, a idade, espero que você me perdoe. Depois vestiu o seu casaco de lã, pegou as chaves do carro, e, antes de fechar a porta, colocou a calcinha de Denise dependurada na maçaneta. Desceu os nove andares de escada mesmo, e dirigiu até o bar do Zeca. Ainda era cedo, é verdade, mas até começar o jogo de futebol ele tinha muitas cervejas bock pela frente.
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Quarta-feira, Julho 24, 2002
A frase em negrito foi enviada por Lou Pierrina Saló
Ainda existe um bilhete escrito com a sua caligrafia na porta da geladeira. As suas letras são simétricas demais para um homem, e sei que este foi o meu erro. Acreditei que você fosse diferente. A verdade, no entanto, sentencia a sua inocência. Por mais diferente que fosse, daquele tipo de raro que é capaz de escrever um bilhete para que eu lembre de comprar os vinis da Nina Simone em CD, você nunca poderia agir de outra forma ao perceber a minha alma mergulhando no seu corpo. Assim, feito salto mortal. Em um ato desesperado de tocar o seu coração, pedindo mais do que é suficiente, pois se todo amor é egoísta, o meu é egocêntrico e precisa ser mais. Mais egoísta, mais carente, mais amor. Ah, mas você poderia ter me acolhido. Agora, tudo o que me resta é torcer para que chova um dia a mais neste inverno. Dias de sol me lembram o seu sorriso, e quero esquecer que um dia nele fui afogada. Doer, quando não chove, deixa de ser uma condição humana e ultrapassa as barreiras do silêncio da minha pele. Os poros de minha virilha pedem por seus lábios, como se ali você regasse o meu desejo com a sua saliva. E agora a minha pele grita, implora, chora. Vou ficar aqui, parada em frente à geladeira, lendo o seu bilhete. Você não precisa mais lembrar. Logo, as prateleiras da sala estarão decoradas com CDs da Nina Simone. Só estou esperando que chova para que eu possa sair de casa e ir ao shopping. Quem sabe no caminho, entre uma gota e outra, você não desapareça de minha vida, como a água da chuva que escorre pelo asfalto.
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Terça-feira, Julho 23, 2002
A frase em negrito foi enviada por Otavio Roxo
Portas douradas com maçanetas em forma de asas. Recepcionistas loiras, de cabelos encaracolados, mostrando as pernas perfeitas em suas meias pretas de seda. Jovens namorados caminhando de mãos dadas, vestindo camisetas com frases como "Elvis Não Morreu" e "Elis Vive". Um palco enorme no centro de todos, no meio de árvores e floreiras, com um luminoso gigante em forma da letra "D". Malabaristas e equilibristas saltando dos galhos, realizando acrobacias como se fossem bailarinos de nuvens. Crianças pulando amarelinha com algodão doce em suas mãos. Pétalas de flores caindo sobre os cabelos grisalhos dos idosos enxadristas. O passado, o presente e o futuro em outdoors iluminados no alto dos prédios. Coral de doo-wop duelando com coral de gospel. O sorriso de mais de cem gerações de minha família. É... eu podia ter imaginado de tudo, menos que a morte era assim.
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A frase em negrito foi enviada por Carla
Era uma noite clara, com muitas estrelas, eu estava deitada em minha cama, de janela aberta, me preparando para dormir quando bateu aquela dúvida: "será que tranquei a porta?". Por mais que a sensação de insegurança me implorasse para que fosse até a sala, o sono acabou falando mais alto. Cansada depois de mais um dia batendo perna em busca de emprego, adormeci enquanto fazia três pedidos para cada uma das estrelas que conseguia ver através da janela. Dormi feito uma pedra, imóvel no lado esquerdo da cama de casal. Acordei com a luz do sol, sorrindo sem ter nenhum motivo, e com uma estranha sensação de esperança. Ainda entorpecida pelo sono, rolei para o lado direito da cama e, para a minha surpresa, encontrei um recorte de jornal. Era um anúncio de classificados, oferecendo uma vaga de emprego em uma empresa de engenharia. "Ah, deve ter caído do meu bolso", pensei, e decidi cumprir o meu ritual de todas as manhãs. Banho, cremes, roupas, maquiagem, café. Ao sair do apartamento, percebi que havia algo errado. A porta não estava trancada. Com o recorte de jornal nas mãos, sorri pela segunda vez naquela manhã. "Se você não abrir a porta, as oportunidades não entram", repeti para mim mesma a frase que o meu pai tanto falava. Apertei o botão para chamar o elevador. E segui o meu caminho.
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Segunda-feira, Julho 22, 2002
A frase em negrito foi enviada por Vera Schaefer
Ele me acorda com um beijo na testa, e tudo o que penso agora é na idiota que sou. De novo, você fez de novo. Todo dia promete que não vai fazer, mas faz. Ignoro a sua pergunta, algo estúpido como "Estou atrasado pro trabalho, só quero dizer que adorei a noite, posso telefonar?", resmungo qualquer coisa e cubro todo o meu rosto com o lençol. Espero até ouvir o barulho da porta se fechar e, com preguiça, levanto da cama. Droga. Você não é apenas uma idiota. É burra, estúpida, medíocre. Pessoazinha que você é, hein? Por que não pode ser sempre a mulher decente, que paga as suas contas, visita os seus pais uma vez por mês, e só chega atrasada no escritório quando não tem mais horário para a depilação? Esta sim é que sabe das coisas. Droga. O desgraçado rasgou a minha lingerie. E eu provavelmente devo ter adorado isso, gritado, urrado, implorado de quatro para que ele arrancasse o resto. Idiota, burra, estúpida, medíocre e, ainda por cima, vagabunda. Vou tomar um banho, curar esta ressaca, esquecer a mulher que sou em noites como a de ontem. Mas então vejo o meu rosto no espelho do banheiro. Há um sorriso, um brilho nos olhos, uma cor na minha pela. Existe algo diferente. Eu sei que, quando entrar naquela maldita reunião de metas, todo mundo vai perceber que sou uma mulher feliz, alegre, bem comida. É isso. Eu preciso daquela vagabunda. Preciso, ah, como preciso. Bem que poderia cair um raio na minha cabeça e me partir em duas. Uma ficaria trabalhando, enfrentando a fila do banco, visitando os meus pais. A outra, bem, a outra ficaria o dia todo trepando. O bom humor de uma dependeria do gozo da outra. É uma troca justa... você não acha?
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Sexta-feira , Julho 19, 2002
A frase em negrito foi enviada por Lili
Se você gritasse Marcelo na ruas de Vila das Violas tudo o que ouviria seria o canto constante dos cães. Mas, se em vez de Marcelo a sua voz soltasse Caracol, aí sim um menino de nove anos de idade iria correr em sua direção. Por mais que a sua mãe reprovasse o apelido, afinal, Marcelo havia sido uma homenagem ao Marcelino Pão e Vinho, era impossível negar que os longos cabelos dourados de seu filho não lembrassem pequenos caracóis. Já Caracol nunca questionara o seu novo batismo, o que não faltavam eram fatos estranhos na Vila das Violas e em pouco tempo aprendera que o melhor a fazer era apenas aceitá-los. Os cães, por exemplo, não latiam, apenas cantavam sambas esquecidos da década de 50. Era um lugar atípico para se viver, mas Caracol sabia que as respostas viriam com o tempo. Mas no mês em que a sua tão aguardada festa de nove anos iria acontecer, a Vila das Violas passara pelo pior verão de todos os tempos. Os termômetros marcavam 35 graus, o céu não demonstrava sinal de chuva, e, pior, o vento simplesmente decidiu não mais aparecer. E isso afetava diretamente o repertório dos cães, pois era pelo vento que aprendiam a cantar os sambas. Até que no dia do aniversário de Caracol, alguém gritou: onde se esconde o vento quando não está ventando? Ao ouvir a pergunta ecoando pela Vila das Violas, ele fechou os seus olhos e assoprou as dez velas. Qual foi a surpresa de todos quando Caracol abriu um dos presentes e dali o vento saiu, levando o menino em direção às nuvens. Os cães voltaram a cantar, e os leques imediatamente foram aposentados. E lá em cima, os cabelos dourados de Caracol se confudiam com o sol. É... tudo pode acontecer quando o seu maior desejo é voar.
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A frase em negrito foi enviada por Vi
Não surgi no leito de meus pais, sou apenas o fruto de folhas amareladas. Letras, sentenças, palavras. Seus personagens, meus mestres. Suas histórias, meus exemplos. Trancada no porão de minha alma, com os olhos fixos em suas páginas, assim foi a minha educação. Lições sobre amor, amizade, paixão. Romance, intrigas, traição. Fui e não fui, morri e matei. Gritei por nada, e gritei por esperar. E é esta esperança que gostaria de lhe pedir. Que a minha vida se torne real. E não mais ficção. Ou melhor: quero que a ficção seja a minha vida real. É demais querer isso sentir? Ou me reservaram apenas o sonho de suas linhas? Ah, mas eu faria qualquer coisa para mudar o fim desta história. Eu ligaria para Shakespeare se houvesse 21 para o céu. E pediria para que ele saísse de minha vida. Porque agora sou eu que quero entrar em sua vida. Dos seus livros não quero mais a ilusão. Dos seus livros eu quero ser apenas inspiração.
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Quinta-feira, Julho 18, 2002
A frase em negrito foi enviada por Marcelo Varda
Para contar esta história seria preciso saber como descrever o silêncio. Espaços em branco, reticências, parênteses vazios. Ou seria apenas o meu dedo esquecido sobre a tecla "o", um zero indefinido, um círculo abraçando o nada. Mas o silêncio não fala, somente diz. Que estou perdendo o meu tempo. Que estou enganando a mim mesmo. Que estou fugindo da realidade. Diz, sobretudo, que já não posso mais assim ficar, sem ouvir um sim ou um não, um fico ou vou, um eu também ou esquece. E no entanto tudo o que recebo em troca é a sua boca feito um "o". Ela pode se abrir, respirar, suspirar. E só. Ela não fala de sentimentos, e eu penso quanto tempo vai durar este monólogo. Mas agora o espetáculo acabou. Fechem as cortinas, por favor. É hora de ir embora. Sem aplausos. Sem flores. Em silêncio. Porque ele é tudo o que restou de quem um dia aprendeu a gemer em meus ouvidos.
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A frase em negrito foi enviada por Milena Azevedo
Ela escreve versos no vidro do box do banheiro. A água quente-fervendo queima em jatos as suas costas, mas a dor da espera é maior. Você disse que chegaria às dez e trinta e dez e cinqüenta são. E mesmo assim a sua pele estará limpa. Porque o resfriado pode obstruir as narinas, mas quando se está perto demais da alma o perfume é mais forte. E eu quero que você me sinta crua. A porta abre devagar. Como pôde entrar tão violentamente em minha vida e ser assim tão discreto? Ela prefere o corpo magro. Porém o suor na camiseta adidas entrega o seu atraso. Já disse, larga a academia, e malhe apenas comigo. As roupas caem sobre o azulejo. No box, as unhas vermelhas ainda versam. Meias brancas, rabiscos poéticos. Acompanhada, ela abre ainda mais o chuveiro. Quero jatos mais fortes. Eu disse jatos. Mais fortes.
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Quarta-feira, Julho 17, 2002
A frase em negrito foi enviada por Charles Pilger
O frio é carente, ele pensava enquanto procurava um lugar para beber a sua cerveja sossegado. Pouco mais de dez graus lá fora e, mesmo assim, dezenas e dezenas de pessoas decidiram sair debaixo de seus cobertores para tentar um pouco de calor no meio de música alta, conversas interrompidas e fumaça de cigarro. Talvez ele até quisesse companhia, mas a idéia de se jogar em algum canto do lounge parecia mais atraente. Hesitou quando viu um espaço sobrando em um sofá de dois lugares em forma de coração. Mas a moça de xale colorido não demorou a perceber a sua indecisão: Ei, senta aqui. Ele sorriu, disse um Obrigado que logo foi abafado pelas caixas de som, e aceitou o convite. Pulou algumas vezes sobre o sofá, falou Que confortável e estendeu a garrafa long neck para retribuir a gentileza. A moça disse Não, obrigada, desculpe, mas cerveja não é bebida de inverno. Desejou que a frase também tivesse se perdido pela sala, mas conseguiu apenas levantar as sobrancelhas tentando aparentar vergonha. É que não entendo nada de vinho, ele se desculpou, por isso acabo só bebendo cerveja mesmo. Ela colocou o xale sobre o colo, abriu o último botão do casaco de lã e perguntou E se você não é um enólogo, é o que então?. Droga. Ele não estava preparado para conversas naquela noite, tudo o que queria eram algumas horas de álcool e música antes de cair sozinho na cama. Até que ouviu os primeiros pa-pa-pa de uma canção que tanto gostava. Respondeu, então, Sou musicólogo. E o que um musicólogo recomenda para esta noite?, perguntou novamente ela. Ele acompanhou as batidas preguiçosas da música e falou Yo La Tengo. Com as sobrancelhas arqueadas, ela demonstrou o seu espanto: Yo La Tengo... nunca ouvi falar. Ah, ele suspirou, é uma banda independente, lá dos Estados Unidos, e em noites como esta, às vezes eu me pergunto: Musicalmente falando, tem coisa melhor que ficar ouvindo Yo La Tengo durante a madrugada no inverno?, se tem por favor me avisem. Ela gargalhou, mexeu nas pontas coloridas de algodão de seu xale, e, nervosa, falou Tem, sim, ouvir Yo La Tengo bebendo um bom copo de vinho tinto, quem sabe um Valpolicella Bolla, que é gostoso e nem é tão caro... Pela última vez naquela noite, ele hesitou, mas o segundo botão aberto do casaco de lã tirou todas as suas dúvidas. Seguiu o xale que coloriu a madrugada, e, ao som de Yo La Tengo acompanhado de uma garrafa de Valpolicella Bolla comprada em uma loja de conveniência, descobriu que sim, o frio é carente. Ou melhor, era.
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A frase em negrito foi enviada por Manuela MMs
Você não tem vontade de matar os programadores de rádio? Às vezes eu me pego na porta do apartamento, pronta para descer os quatro lances de escadas, pegar o primeiro ônibus, invadir o estúdio destas malditas FMs e metralhar quem escolhe as canções que me acordam. Porque é muito cedo para ouvir vozes roucas, violões metalizados, notas que lembram dias de cigarros, livros, discos & camisinhas espalhadas pelo quarto. Sim, é muito cedo para lembrar de você. Tenho tanta coisa a fazer. Eu preciso mudar de apartamento, comprar alguns móveis e dar nome para o gato. Estas escadas podem estar torneando as minhas pernas, mas quero a fantasia de que alguém - você? - irá me foder no elevador. E cansei também de falar com as paredes, talvez seja hora de conversar com uma estante. Agora o gato lambe o meu rosto. A moça da rádio insiste em recriar Nashville em plena Cidade Baixa. Quem ela pensa que é para brincar com os meus sentimentos? Desligo o rádio. Vou tomar um banho quente. Os classificados de domingo ainda estão sobre a mesa da cozinha. É hora de me mudar de você de uma vez por todas. E, quem sabe, no caminho eu encontre um despertador que faça apenas trim.
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A frase em negrito foi enviada por Rodrigo Duarte
Já passava das três da manhã. Encostei a minha cabeça na sua barriga e a senti mexer. Fiquei alucinado. A sede que me acordou logo se transformou em nervosismo. Desespero, até. Está viva, pensei, agora não há mais nada que eu possa fazer a não ser esperar mais cinco meses. Sentindo os chutes, realizando os desejos terceirizados, visitando especialistas em numerologia. Cinco meses e todos nós nasceremos de novo. E nem ao menos sei se estou pronto. Deixo, então, a sede definitivamente de lado e beijo a sua barriga, em uma tentativa de desculpas antecipadas pelos erros que irei cometer depois. Mas quando sinto os dedos com cheiro de abacate fazendo círculos em meus cabelos, tudo parece fazer mais sentido. São estes dedos, concluo, que irão me colocar de volta à estrada. Porque agora eu sei: um mais um são três.
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Terça-feira, Julho 16, 2002
A frase em negrito foi enviada por Fabiana Alves
Numa certa noite, ele estava andando pelas ruas escuras da cidade, com os pensamentos perdidos numa cena que lhe atordou durante todo o dia, e que, até então, não lhe deixava em paz. E à medida que caminhava, mais a sua cabeça doía, e, aos poucos, já não conseguia mais nada exergar. Cada passo que dava sobre o asfalto sujo do centro velho era como se estivesse mergulhando em um oceano escuro e profundo. Cego pela culpa, nem percebeu quando socos, pontapés e pedaços de madeira lhe atingiram. Apenas fechou os olhos. E quando não sentiu mais o ar em seus pulmões, viu pela última vez a cena de sua filha chorando passar pela a sua cabeça e, então, ele sentiu uma espécie de paz. Amarga, é verdade. Mas paz, enfim.
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A frase em negrito foi enviada por Eduardo Nasi
Não é fácil ter bico de pato e não ser pato. Todos os meus amigos dizem que é normal, que não devo ficar preocupado, que é comum ter problemas de identidade quando se é adolescente. Mas não sou burro. Muito menos surdo. Sei que sou motivo de piadas. Minha mãe falou que não é para eu sofrer, mas não é nada legal ficar ouvindo risadas pelas suas costas. Às vezes penso que seria melhor morrer. Acabar com este dilema. Mas então lembro que pelo menos tenho os meus discos. Hoje, quando chegar em casa, vou ouvir Travis no volume máximo. Isso mesmo. Travis. Você pode achar que a banda tem jeito de rock mas não é rock. Não passa de um quarteto de chorões. Pense o que você quiser. Eu sei como é se sentir assim. Por isso, não quero nem saber. Vou ouvir Travis bem alto. Porque não posso fugir da verdade: sou um ornitorrinco que gosta de Travis.
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Segunda-feira, Julho 15, 2002
A frase em negrito foi enviada por Rodrigo James
Segunda-feira. Seria melhor viver sem ela. Mas já que não dá, que tal tentar levar da melhor maneira possível? Não saindo da cama, por exemplo. Afinal, eu tenho barras de chocolate escondidas no armário do cozinha, caixas de chá de todos os sabores dispostas simetricamente na estante acima da pia, discos do Coltrane esperando por este momento preguiçoso, sensual, irresponsável. Tudo o que lhe peço são poucos minutos, o suficiente para a água ferver, e pronto. Volto para a cama, debaixo do edredom somos como crianças em cabanas improvisadas, deixando o chá quente derreter o chocolate sobre a pele um do outro. E se o seu chefe telefonar, perguntando por que você ainda não chegou no escritório, entre uma língua e outra você irá responder com outra pergunta: - Vem cá, seu infeliz, você não tem ninguém pra comer numa segunda-feira de manhã, não?
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