Segunda-feira, Setembro 30, 2002
A frase em negrito foi enviada por Last Nine
Aperto a campainha tentando esconder o buquê de flores atrás das costas. Você detesta estes ataques de romantismo, eu sei. Mas que hoje seja diferente porque a sua indiferença me cansa. Descalça, apenas de jeans e sutiã, você abre a porta. Nossa, é cedo, ainda nem tô pronta. Um sorriso sem graça, você tem uma tatuagem no peito do pé, ainda não havia descoberto este detalhe. Tó, pra você. Uau, flores, sabia que é a primeira vez que recebo flores? Nem sei onde guardar, ah, desculpe, entra, fica à vontade enquanto arranjo um lugar pra guardar o buquê. Você caminha com pressa até a cozinha, vejo o banheiro esfumaçado, imagino o seu corpo saindo do chuveiro, começo a acreditar que não há mais volta. Subitamente esqueço que fiz uma reserva no restaurante mais disputado da cidade, outra mesa só daqui a três semanas, e me dirijo à cozinha. Quero você. Ei, que é isso, tá ficando louco? Não, você não entendeu, quero você, chega de conversa, quero você e ponto final. Seguro a sua cintura. Não vou deixar você escapar. Peraí, cadê o cara romântico que me traz flores, me convida pra jantar, me liga umas dez vezes por dia pra perguntar se tenho espaço na agenda? A sua tatuagem fodeu com tudo, e agora eu quero foder você, quero agora, você, entendeu? Encosto o meu rosto no seu pescoço. O seu perfume me deixa tonto. As minhas mãos procuram os seus seios, a minha boca mergulha em sua orelha. Você grita, me chama de louco, empurra com o corpo o vaso com as flores, tenta me dar socos. Mas eu sei o que quero e vou realizar o meu querer. Lutamos desesperadamente até que a sua mão alcança os pratos, copos e talheres que secam sobre a pia. Veja como são as coisas. Eu lhe trouxe amor e recebi facadas. Uma, duas, três até cair no chão de azulejo frio. Antes de fechar os meus olhos, vejo o meu sangue colorir a sua tatuagem. Isso, meu amor, é o que eu chamo de romantismo.
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Quarta-feira, Setembro 25, 2002
A frase em negrito foi enviada por Alex Almeida
Você acha que não preciso de seus olhos, então saiba agora. Eu preciso dos seus olhos lendo as entrelinhas de meus textos. Eu preciso dos seus olhos nos meus olhos quando toco você. Eu preciso dos seus olhos me observando vinte e quatro horas por dia. Eu preciso dos seus olhos me dizendo bom dia em todas as fotografias espalhadas pelo apartamento. Eu preciso dos seus olhos dançando todas as estúpidas canções que ouço. Eu preciso dos seus olhos fechados dormindo ao meu lado. Eu preciso dos seus olhos molhados debaixo do chuveiro. Eu preciso dos seus olhos escondidos em óculos escuros. Eu preciso dos seus olhos recitando o meu desejo enquanto digito estas palavras. Eu preciso dos seus olhos arregalados quando você goza. Eu preciso dos seus olhos toda vez que nos vemos e é como a primeira vez que nos vemos. Ah, você acha que não preciso de seus olhos, então saiba agora. Eu sou um homem. E não sou uma ilha.
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Terça-feira, Setembro 24, 2002
A frase em negrito foi enviada por Gus Bozzetti
Redescobriu o apartamento sem querer. Uma manhã de domingo fria, a cuia de chimarrão esquetando as suas mãos, o jornal com as manchetes com gosto de pão dormido ainda em cima da mesa da cozinha. Assim sem querer, sem saber, ele pensou que talvez fosse o momento para trocar de carro. Além do mais, não agüentava mais os filhos reclamando de seu velho Santana. Abriu os classificados na seção de automóveis, mas logo estava lendo os anúncios de apartamentos para alugar. E foi então que aconteceu. Ao ler aquele endereço, os seus olhos congelaram nas letras miúdas. Os sentimentos surgiam um após o outro, uma avalanche de confusão que, ao trazer abaixo saudade e dor e angústia e arrependimento, abria o caminho para a memória passar. Deixou se levar, sem medir as conseqüências, e logo estava à frente do prédio. Conversou com o porteiro, quero ver o apartamento de um quarto que está para alugar, o senhor tem que falar com o zelador mas hoje é domingo, implorou, por favor, por favor, não me faça perder a viagem, ok, mas não conte para ninguém, você tem a minha palavra, muito obrigado. Dispensou o elevador e subiu os quatro andares de escada. Sem fôlego, abriu a porta do apartamento com as pernas tremendo. Passou pela minúscula sala e foi direto ao quarto. Não pôde evitar as lágrimas ao perceber que elas ainda estavam ali. Sim, as risadas de Maria ainda voavam pelo quarto. Da mesma forma que iam dali para cá quando ele era trinta anos mais jovem, quando os dois cantarolavam nus na cama. Ela fora a única mulher que conhecera que gostava de cantar depois de fazer sexo. E depois dos versos, da melodia, da afinação duvidosa, depois de tudo, só risadas. Risadas que ganhavam vida e coloriam as suas tardes de sábado, e o acompanhavam na loucura da faculdade, estágios, problemas com a família. Mas agora ele sabia que era preciso fazer algo. As risadas não possuíam mais graça. Somente a tristeza da felicidade imatura. Abriu as janelas. O vento frio cortava a sua pele. E as risadas ali, voando. Tem vezes que é melhor deixá-las ir embora, pensou. Nunca é tarde para tentar de novo.
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Segunda-feira, Setembro 23, 2002
A frase em negrito foi enviada por Glaurea Oliveira
Ainda estou de quatro quando ele desababa ofegante na cama, e logo tira a camisinha, dá um nó como se estivesse fechando um balão, e a deixa na mesinha de cabeceira sobre o pacote rasgado. Então ele toca as minhas costas e, aos poucos, deixo que o meu corpo se deite em câmera lenta. Sinto a ponta dos pés se arrepiarem, e isso é bom, vou dormir logo, vou dormir bem. Peço para que desligue o abajur, dou um beijo de boa noite, os meus olhos se fecham antes de eu pensar em fechá-los. Mas ele está dizendo alguma coisa. Não quero conversa, tenho sono. Ele insiste como uma mulherzinha que quer conversar depois de trepar. Ah, droga, diz logo. Um abraço, e ouço um Eu amo você. Subitamente perco o sono. Será que ouvi bem? Sem que eu peça ele repete Amo, amo você. Desse jeito mesmo, repetindo o amo. Por que dizer mais duas vezes? Uma já é o suficiente para que a sua presença aqui, nu em minha cama, comece a me incomodar. Não pode ser amor. Não quero que seja amor. Não! Não é amor. Por que você não acende a luz? Obedece, o coitadinho. Olha assustado, ah, é mesmo um coitadinho, um cachorrinho, um apaixonado. Dá tudo na mesma. Diga alguma coisa, não fique aí quieto. Eu amo você, ué, só isso. Não, seu idiota, não fale isso de novo, admita que isso é uma grande brincadeira. Mas, mas, mas, é tudo o que consegue dizer. Chega. Cansei. Um dia isso iria acontecer. Jogo as suas roupas, visto uma camiseta, acendo um cigarro. Vai, vai embora daqui, acabou. E como um bichinho de estimação, sai correndo, bate a porta, esquece o guarda-chuva. Deixe estar. Qualquer dia desses devolvo para ele. Antes de voltar para a cama vejo a camisinha ao lado do abajur. Pego aquele pedaço de látex e levo para o banheiro. Vejo o meu reflexo na água da privada. Por que tem que ser sempre assim? Por que eles têm que me amar? Depois do amor, é ladeira abaixo. E sei muito bem do que gosto. Desato o nó da camisinha, lambuzo a minha boca com a sua porra, e só depois deixo que ela mergulhe. Puxo a descarga, e deito com uma sensação gostosa de novo, estou satisfeita. Vou dormir logo, vou dormir bem.
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Quinta-feira, Setembro 19, 2002
A frase em negrito foi enviada por Jordana
Eu gostava de vê-la com as mãos na terra. Poderia ficar uma eternidade balançando na rede enquanto ela cuidava de nosso jardim. Era como se estivesse plantando, regando e podando todos os sentimentos, problemas e batalhas que a vida nos trazia. E se os meus olhos enxergavam metáforas baratas, os seus castanhos refletiam harmonia. Sábado à tarde, duas mulheres, uma casa. Limpando as mãos em seu avental, ela dizia que tínhamos sorte, que deveríamos ser sempre assim, de janelas abertas para o sol. E, com sede, bebia do meu copo, gargalhava quando esfregava os meus pés descalços em suas pernas, perguntava se já havia pensando em adotar uma criança. Está faltando uma criança correndo por este jardim, repetia. Não, eu não havia pensado, e às vezes transávamos ali mesmo na rede, imaginando o que aconteceria se a nossa saliva fosse feita de esperma. Mas um dia o nosso jardim desapereceu por entre a grama alta. E as suas mãos não tinham mais o cheiro da terra, apenas o perfume de outra mulher. Restei sozinha nesta casa, neste sábado, nesta rede. Mas eu me recuso a deixar de acreditar em nós. Ainda sou uma mulher de metáforas baratas. Ontem encontrei o seu avental e a sua caixa de ferramentas. Algumas sementes também. Talvez seja a hora de eu plantar, regar e podar. Vou abrir novamente as janelas. Um dia o sol há de voltar.
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Quarta-feira, Setembro 18, 2002
A frase em negrito foi enviada por Yulia Samari
O aroma dos meus temperos é o caminho que te traz até aqui, do banho para o quarto, do quarto para a cozinha, da cozinha ao meu corpo. Tu gostas de me ver assim, tão submissa, tão mulherzinha, preparando o jantar do meu homem, tu que mal percebes a verdade. Que és macho demais para saber quem é que cozinha quem, quem é que prepara quem, quem é que tem a receita de quem. Chegas devagar, dizendo que tens fome, beijas o meu pescoço. Ainda faltam trinta minutos, meia hora de forno, o que irás fazer agora? Hein? Já sentiste o meu cheiro? Calcinha úmida, suor nas mãos, pés caindo de sandálias. Será que não vês que apenas sou tua porque és meu-meu-meu? Então, não me olhes como quem acabou de trocar de roupa. Esperei demais por hoje. Quero um gozo masculino. Urgente. Rápido. Prematuro. Estás esperando o quê? Porra. É isso. Porra, agora. Porque quando tu me esfregas na pia, já não me interessa teu gênero, flor, pepino, papaya. Tu não és homem, eu não sou mulher. Somos apenas corpos que se mastigam, sugam, engolem. E, depois, caímos esbagaçados feito restos de comida em pratos duralex... satisfeito?
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Terça-feira, Setembro 17, 2002
A frase em negrito foi enviada por Luis Henrique
Agora que me negou a dança de sua vida será que você pode, por favor, sentar ao piano e tocar uma canção? Antes que eu vá embora sem conhecer a poesia dos seus dedos. Antes que eu feche a porta de meu desejo. Antes que a minha tristeza venha sozinha. Preciso de uma companhia em dó. Existe coisa mais linda que um piano chorando baixinho? Você sabe que não. Então. Faça de minha perda algo menor. Não me deixe aqui, com lágrimas solitárias. Não me deixe aqui com lágrimas... surdas.
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Segunda-feira, Setembro 16, 2002
A frase em negrito foi enviada por Luis Gustavo Claumann
Uma pulga na balança deu um pulo e foi para a França. E, antes tão recatada, apaixonou-se pela noite parisiense. Aprendeu a beber vinho, a acompanhar as batidas das vassouras de bateristas de jazz, a conhecer os amores escondidos na fumaça dos cigarros Gitanes. Leu Sartre e Camus e Proust em páginas com aroma de café preto. Ignorou os caminhos dos turistas, e descobriu uma cidade só sua em cada rua estreita, em cada prédio com as paredes cheias de fuligem, em cada bêbado poeta que encontrava nas esquinas. Até que um dia, saudosa de sua terra natal, soluçou em um barril e voltou para o Brasil. Desde então, a pulga vive atrás da minha orelha.
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Sexta-feira , Setembro 13, 2002
A frase em negrito foi enviada por Kelly Mauat
"Por que tu desistiu da mamãe?", pergunta ele com a boca melada de pipoca doce. Curvo o meu corpo, coloco os braços sobre as coxas, os meus olhos são ofuscados pelo brilho dos pequenos cristais escondidos na areia da praça, observo os seus pés indo e voltando pelo ar, e tento me colocar fora da cena. Há três anos, quando ainda estava decorando o meu antigo escritório com papel de parede de ursinhos, jamais imaginei que a minha vida de pai seria um dia uma cena de filme de Hollywood. Data e horário marcados, passeios que já conhecemos de cor, lágrimas afiadas na despedida. E agora ele quer saber por que desisti de sua mãe. Não sei nem quem desistiu primeiro, por isso penso em ficar quieto, distraí-lo com um balão ou um catavento, as crianças de hoje não brincam mais de catavento, as crianças de hoje não admiram o simples, procuram respostas tão complexas quanto a explosão de cores da tela da televisão. Mas não seria justo. "Desisti da mamãe porque ela não tava sendo feliz, eu não tava sendo feliz, e logo-logo tu também não seria feliz também", finalmente respondo. Ele arrasta a sua bundinha para perto de mim, toca os meus cabelos e diz "Ah, mas mesmo se não fosse feliz, papai, eu nunca desistiria de ti ou da mamãe". Deixo cair uma gota de esperança sobre a areia, com a torcida de que uma árvore de frutos melhores aqui crescesse, e o abraço. De olhos fechados, tenho rápidos flashes de felicidade. Ele tem a pele, o cheiro, os cabelos, o nariz e os dedinhos tortos da mãe. Nós, tão egoístas, acreditamos que era melhor desistir da idéia de sermos felizes, e a felicidade esteve sempre ao nosso lado. Vivo, logo insisto.
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Quinta-feira, Setembro 12, 2002
A frase em negrito foi enviada por D'arcy
Você se orgulha de nunca ter tocado um dedo em mim, mas se não tive toques de violência, de carinho tampouco. Agora, o ônibus corta a neblina, o verde da paisagem se torna borrões de cinza, e finalmente descubro o que significa voltar. Poderia imaginar dezenas de metáforas. Como abrir álbuns de fotografias escondidos no fundo do armário. Descobrir que as lembranças que você matou reapareceram como fantasmas. Colar com fita adesiva cartas rasgadas jogadas no fundo de uma lata de lixo. Encontrar potes de requeijão, maionese e iogurtes vencidos na geladeira. O gosto de voltar é mofado. Você já conhece bem. Eu já conheço bem. Muito bem. Posso ouvir a sua voz ecoando em cascata pela casa, reclamando do que fiz e do que não fiz, do que disse e do que não disse, das pessoas que trouxe e das pessoas que não trouxe, dos beijos que dei e dos beijos que não dei, das louças que quebrei e das louças que não lavei. E sei também que vai sorrir, me abraçar, falar que sente saudade, me ama, essas coisas que as mães repetem como se todas comprassem sempre o mesmo discurso. Mas quer saber? Eu sou diferente. Não preciso de um ghost writer. Sei muito bem o que quero. Quero apenas lhe dar flores baratas, deixar cair algumas lágrimas sobre a cama de hospital, e tentar ver um pingo de arrependimento em seus olhos fechados. Mas nem assim consigo ficar tranqüila. Acredite, queria sentir a dor da perda. Só que, agora, sentada no banco deste ônibus, eu só quero não sentir medo da próxima vez que nos virmos.
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Quarta-feira, Setembro 11, 2002
A frase em negrito foi enviada por Lucas Amorim
Garçons imaginários me oferecem palavras em um rodízio de adjetivos, advérbios, substantivos e verbos. Mas a fome de escrever, antes tão dolorida e gelada, agora parece ter desaparecido na velocidade da minha pressão. O professor continua em silêncio, sentado em sua mesa, corrigindo as provas de outra turma. O relógio não pára, os anos não páram, quando conheci você éramos crianças de seis anos de idade. Hoje, somos crianças de quinze anos de idade. Por isso, rimos quando deveríamos sorrir, olhamos para baixo quando deveríamos nos encarar, dizemos mentiras quando deveríamos falar a verdade. Mas, ei, esta é a minha oportunidade. Vou escolher as melhores palavras, as mais bonitas, vou inventar novas metáforas, rimas ousadas. E quando a minha redação for escolhida a melhor da classe, o professor irá me chamar para que eu a leia em voz alta. Você vai corar, eu sei, vai ficar entre uma bola de papel no rosto e um beijo na boca. Mas, droga, desaprendi a escrever. Azar. Que se fodam as minhas notas. Vou entregar a redação em branco. Porque tudo o que importa é o seu nome. O seu nome é só o que aceito neste rodízio. Por isso, aceite a minha sincera homenagem. O seu nome está escrito no meu All Star. E esse é o meu modo de dizer eu amo você.
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Sexta-feira , Setembro 06, 2002
A frase em negrito foi enviada por Miss P!
Você é feliz? Não gosto disso. De perguntas que me fazem adivinhar o assunto. De perguntas que disfarçam intenções covardes. De perguntas que silenciam a minha voz. Pelo menos poderia ter esperado que eu tivesse recuperado a respiração. Que eu saísse de dentro de você. Que eu ficasse naquele estado letárgico pós-sexo. O que você pretende? O que você quer? Onde é que você deseja chegar? Por que a pergunta? Porque sim, ué, quero saber se é feliz. Feliz como? Feliz comigo, com a gente, essas coisas. Jogo o meu corpo para o meu lado da cama. Isso é vida de casal. Eu tenho um lado meu da cama. E isso me deixa feliz. Sim, sou feliz. É nada. Por que a dúvida? Porque não é. Você está acostumado, só isso, mas não é feliz, afinal são quatro anos juntos. Isso é sacanagem, sabia? Você está jogando em mim o que você sente. Não, você não entendeu, simplesmete acho que você não é feliz, que merece mais. E agora você levanta da cama. Tão facilmente, veste as suas roupas. Depois passo aqui para pegar as minhas coisas. Não sei se choro. Se fico triste. Se começo a quebrar as coisas. Mas quando ouço a porta bater, percebo. Não, não sou feliz. Sou apenas um fracassado.
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Quinta-feira, Setembro 05, 2002
A frase em negrito foi enviada por Saint-Clair Stockler
Há noites em que acordo, sede, banheiro, insônia, qualquer desculpa, e fico assim olhando você dormir, e então esqueço por que acordei, sede, banheiro, insônia, qualquer desculpa já não é mais desculpa porque quando vejo você dormir me sinto hipnotizado, a curva das suas pernas, com um lençol pela metade, sei que talvez esteja sentindo frio, mas, azar, deixe que eu descubra o seu quadril, deixe que eu veja a sua calcinha de algodão, deixe que eu veja a sua cintura, toque sem tocar a sua barriga, assim apenas com o a ponta dos dedos, subindo pelos seus seios pequenos, à mostra, o seu pescoço, ah, e agora o seu rosto, um rosto perfeito que me faz lembrar que os chineses é que têm razão, alguém um dia disse o rosto chinês é um poema, alguém disse ou li em algum lugar, nem lembro mais, agora tanto faz, quero apenas ver os versos de seu rosto, a rima de seu queixo com a sua boca, a metáfora de seu nariz de narizinho, as estrofes dos seus olhos gigantes fechados, esperando para as pálpebras se abrirem em palavras não ditas de paixão, amor, essas coisas fora de moda, mas que se foda a moda, não é mesmo, que se foda as convenções, às vezes a gente chega a acreditar no que as outras pessoas dizem, que sou um brega, um neo romântico, um cara que escreve egotrips de relacionamentos que não existem mais, mas, ei, o que é isso, você existe, e dorme ao meu lado, todos os dias, e os dias todos, e quando acordo assim, de repente, e vejo você dormindo quero mais é toda a paixão, amor e outras coisas fora de moda, quero tudo, tudo quero, e tudo não é suficiente, aí você percebe que estou olhando para você, assim feito um maluco, e você abre os seus olhos com preguiça, resmunga volta para a cama, vem me abraça, quero sentir os seus pés se esfregando nos meus, aí deixo para trás qualquer desejo além de dormir com você, sede, banheiro, insônia, qualquer coisa, quero apenas deitar com você, e olho para o seu rosto até adormecer, e é como se alguém, em vez de histórias infantis, lesse poemas para mim, boa noite, bom dia, boa tarde, boa vida, bom futuro.
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Quarta-feira, Setembro 04, 2002
A frase em negrito foi enviada por Guilherme Dable
Minha cidade morreu. Agora só me resta a lembrança do cheiro de chuva em tardes frias. A umidade escorrendo pelos azulejos do apartamento. As folhas formando um tapete verde desbotado sobre as calçadas. O sorriso das crianças girando no ar. O gosto de carne e batatas aos domingos. As cervejas em avenidas decoradas com coqueiros. Os argentinos e seus cabelos compridos a cada verão. A voz de sotaque familiar nas rádios. Os cachorros quentes com excesso de molho de tomate. As filas de cinema minúsculas em domingos de sol. Os parques com seus patos e pedaços de pães. Minha cidade morreu. E não apareci em seu velório. No meu lugar, mandei a saudade.
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Segunda-feira, Setembro 02, 2002
A frase em negrito foi enviada por AJ
O problema de tomar café da manhã na padaria é o gosto do suco de laranja que fica em sua boca logo após escovar os dentes. Mas o que eu poderia fazer? Não era possível simplesmentes sair de casa sem escovar os dentes, ir para a padaria da esquina, e voltar para casa para fazer a minha higiene bucal. As minhas manhãs possuíam um cronograma apertado, qualquer minuto perdido significaria um atraso no escritório, e o olhar cínico da secretária de meu chefe era capaz de transformar o meu humor em algo insuportável até para mim mesma. Mas, em uma manhã de julho, o cachorro começou a aparecer. Ele ficava lá em frente à padaria, com o seu olhar de vira-lata solitário, observando cada movimento meu. Mexia as orelhas, deitava sobre a calçada e permanecia quieto enquanto eu terminava de beber o meu suco de laranja. E assim foi durante três semanas. Por mais que o meu trauma por bichos de estimação me impedisse de sentir qualquer tipo de afeto - afinal, em 27 anos foram dois gatos, uma tartaruga e três pintinhos mortos tragicamente -, não havia como fugir da realidade: me cortava o coração ver aquele cachorro na porta da padaria. Era lógico que aquela cena não possuía nenhum significado especial, mas eu não acredito em astrologia e, mesmo assim, leio três horóscopos diferentes por dia. Então um dia ele me olhou com tanta desilusão, se é que cachorros se desiludem, que não tive mais dúvidas. Esqueci todo o meu cronograma, e levei aquele vira lata para casa. E como já estava atrasada mesmo, aproveitei e dei banho nele. E acabei não indo trabalhar naquela manhã, pois precisava comprar comida, pratinho, vitaminas. E também não apareci no escritório naquele dia, porque Lino quis brincar, passear e correr. No outro dia, ao acordar, percebi que a minha vida realmente estava sem sentido. Liguei para a secretária mal comida e pedi demissão. Subitamente tive esta impressão de que dar atenção a Lino era dar atenção a mim mesma. A vida continua difícil, é verdade. Mas agora o meu dia não começa mais com um gosto ruim na boca.
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