Quinta-feira, Outubro 31, 2002
A frase em negrito foi enviada por Natygirl
Seria um amor de verão adolescente. Se ela não tivesse 26 anos, e o agosto em São Paulo não marcasse 12 graus centígrados. Em silêncio, de óculos escuros apesar das seis horas da tarde, ela permanecia imóvel dentro do carro parado no estacionamento. Ele respirou fundo. Como todo homem, não sabia o que dizer em um momento como aquele. Apenas segurou a sua mão, falou que não havia por que ficar tão triste, prometeu escrever, telefonar e visitas de quinze em quinze dias, além de feriados prolongados em pousadas entre Minas Gerais e São Paulo. Ela soluçou, enrolou o cachecol sobre o pescoço, abriu a porta do carro e pediu para que ele não a acompanhasse. Desejava caminhar sozinha até o guichê, ouvir o barulho do carrinho de malas abafar o som de seu choro baixinho, e esperar o seu vôo entre uma página e outra de uma revista qualquer. Com um sorriso, ele obedeceu. Trocaram um beijo rápido, e logo ela já estava na fila do check-in. Antes que pudesse descobrir que em sua bagagem havia apenas saudades, ele surgiu ao seu lado, de surpresa. Nenhuma palavra, apenas um beijo. "Você esqueceu da sua passagem de volta", ele disse. Durante aquela viagem, ela sentiu vertigem pela primeira vez. Nervosa, arrependida, sentindo-se covarde, correu até o minúsculo banheiro. Pensou em atacar a si mesma então. E começou pelos cabelos. Ao colocar os pés em Belo Horizonte, já não era mais a mesma mulher. E muito menos sentiu que estivesse em casa.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Quarta-feira, Outubro 30, 2002
A frase em negrito foi enviada por Gregor Samsa
Tia, me dá um trocado? O menino ali, dependurado na janela do carro, com o rosto perto demais do seu, e ela imóvel, muda, hipnotizada pelo pedaço de concreto abandonado na Avenida dos Estados. Já ouvira falar do treme-treme, do São Vito, da cidade de corredores estreitos que abrigava viciados, traficantes, travestis e desesperados do centro de São Paulo. O farol verde, o menino ainda respirando em sua nuca, as buzinas do carro. Você mora aí no São Vito? Moro. Então, deixa eu estacionar o carro. Uma manobra brusca, pneus cantando, mais buzinas. A tia não pode subir aqui não. Você sobe comigo. Cê tá querendo me meter em encrenca. Vamos, quanto você quer? Vintão. Dou trinta, certo? Negócio fechado, nervosismo, passos rápidos. Ela não sabia o que queria ver primeiro. Posso conhecer o seu apartamento? A tia é doida? Por favor? Cada uma que me aparece. Dez andares de escada, elevador estragado, o cheiro de perfume paraguaio, maconha, camisinha usada. Mas aquilo não a incomodava. O que doía era a lembrança de sua própria casa. As linhas modernas de seus móveis, o branco excessivo das paredes, o aroma de lavanda do piso. Tudo que fosse necessário para esconder o seu vazio. Sentiu medo ao encontrar três adolescentes se picando no nono andar. Tá olhando o quê? A tia tá comigo, tá limpo. Olha os olhos da madame, tá cheio de fome, aposto que a vadia quer um pouco. Respirou fundo. Esticou o braço. A vida dói, a vida dói pra caralho, ela dizia enquanto se picava. Tia, me dá um trocado? Toma, menino, toma toda a minha vida.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Terça-feira, Outubro 29, 2002
A frase em negrito foi enviada por Antonia
Você é desejo de felicidade, disse enquanto fechava o porta-malas do carro. Esperou alguma reação, um sorriso, um suspiro, um olhar qualquer. Mas ela penas deu um salto à frente, beijou a sua bochecha, e falou Adeus, cuidado na estrada. Em silêncio, ele sentou ao volante e ligou o motor. Pelo espelho retrosivor, ele via o seu passado acenar em despedida. Tolas danças às quatro da manhã. Garrafas de vinho no parapeito da janela. Estrelas bêbadas com cheiro de sexo. A vertigem de cair ao chão. Não devemos ter medo, as últimas palavras que escutara. E, mesmo assim, lá estava ele. Dirigindo, fugindo, escondendo. Os objetos parecem estar mais próximos, as letras em baixo relevo avisaram no espelho. Caralho, ele pensou, e subitamente freiou o carro. E então deu uma ré de volta para o futuro.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Sexta-feira , Outubro 25, 2002
A frase em negrito foi enviada por K
Deixou a porta aberta porque um dia poderia voltar, mesmo sabendo que ela a fecharia no minuto seguinte, com trancas e correntes e cadeados e alarmes, e depois de alguns anos estariam discutindo o valor da pensão para o filho que ainda não sabem que irá existir, desceu os onze andares de escada, queria estar cansado ao chegar lá embaixo porque assim nem iria ter forças para entrar no elevador, por que ir embora é tão difícil?, por que beijar e trepar e acordar e trazer todas as suas roupas foi fácil?, se soubesse que tudo isso terminaria desse jeito, tão sem graça, tão sem emoção, se sobeusse, ah, ele teria feito tudo de novo de forma mais drámatica, teria dançado como Fred Astaire pela calçadas enquanto carregava a caixa com os seus livros, teria feito uma festa de despedida em seu apartamento de solteiro, aberto champanhe, estourado fogos, transado em pé na sala vazia, em uma noite de sexo que continuaria pelas ruas de São Paulo até o apartamento com perfume de maracujá que escolhera para viver, e agora este cheiro fica para trás enquanto desce as escadas, apenas uma mochila nas costas com o peso de sua vida, e quando chega à rua, não olha para trás, tenho vontade do mundo, pensa, e caminha até a parada de ônibus. Quando perde de vista o seu bairro, lembra que hoje ela pegaria os resultados do exame. Mas é tarde, muito tarde, tarde demais para deixar o mundo esperando.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Quarta-feira, Outubro 23, 2002
A frase em negrito foi enviada por Lucca
Algumas pessoas juntam as escovas de dentes. Nós decidimos juntar as nossas coleções de discos. E, apesar de já ter motivos suficientes para ter certeza de que estava fazendo a coisa certa, no meio de sua pilha de CDs encontrei a cereja do bolo. Você irá me chamar de tolo, idiota, tanto faz. Mas ela possui o último álbum do Smiths. Novinho, comprado na Itália, com qualidade digital. E ela ainda me disse que é o predileto dela. O mundo inteiro prefere o The Queen Is Dead e nós dois elegemos o Strangeways Here We Come. Coincidência? Talvez. Mas, você sabe, os apaixonados se alimentam dessas coincidências e, romanticamente, acreditam que se trata de destino. Hoje acordamos juntos ao som de Last Night I Dreamt That Somedy Loved Me. E não, não era um sonho.
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A frase em negrito foi enviada por Bellit
Jogo o isqueiro descartável no lixo, equilibro o cigarro apagado nos lábios, sinto que estou muito cansado para voltar ao escritório apenas para acendê-lo. Malditas empresas modernas e suas áreas para fumantes. Até a minha mesa são três lances de escada e, além de não ter mais fôlego de um homem de vinte anos de idade, não quero correr o risco de ser atacado pelo meu chefe e ser obrigado a responder dezenas de perguntas inúteis sobre o mercado de chips, drives e processadores. Coloco as mãos nos bolsos do paletó, aproveito para afrouxar a gravata, e, para o meu alívio, encontro uma caixa de fósforos. O nome do bar imediatamente me faz lembrar de você, do nosso primeiro e único encontro, das palavras que não ouvi porque estava concentrado na minha decisão de não beijá-la. Idiota. Estúpido. Se soubesse que não haveria outra mesa de bar, deveria ter avançado, ultrapassado os limites, o sinal vermelho dos seus olhos, a sinalização negativa que recebi de seu corpo. A minha vontade de fumar aumenta, abro a caixa de fósforos, e só então vejo a sua frase. Será que você ainda pensa assim? Olho para o relógio, já deveria ter subido ao escritório, preciso entregar os meus relatórios. Finalmente acendo o meu cigarro. Mas desta vez não há fumaça saindo pela minha boca. Há bolhas de sabão no céu azul. Que se fodam os relatórios. Vou seguir as bolhas de sabão de meu cigarro até reencontrar você.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Segunda-feira, Outubro 21, 2002
A frase em negrito foi enviada por Roberto Bittencourt
Quando a jovem de vinte e seis anos de idade decidira lhe batizar com um nome tipicamente humano, Luciano chegou a acreditar que o seu segredo havia sido revelado. Mas já em seu segundo monólogo ela mostrou a sua descrença. "Ah, devo estar muito carente mesmo pra conversar horas com um cachorro", suspirou. Luciano balançou as orelhas e latiu, em uma espécie de consolo. Ela o abraçou, acariciou o seu pêlo, e disse "Bom, pelo menos você está aqui". Apesar de sentir pena de sua solidão, Luciano fazia parte da linhagem dos cachorros que apenas poderia ouvir. Há muitos anos surgiram espécies com o dom da fala, mas os seus donos acabaram sendo acusados de loucura pela sociedade e condenados à morte em sanatórios no campo. Desde então, os cachorros decidiram que o melhor a fazer seria desaprender a falar. Ouvir sim, porque, afinal, este é um dos principais motivos de existirem. Mas Luciano queria falar. Porque doía muito ver aquela mulher caminhar de pijama pelo apartamento ao domingo, esperando o telefonema de falsos amigos e amores perdidos. Por isso, latia, fazia festinha, saltava, brincava com os seus bonequinhos de borracha. Ele queria apenas oferecer algum tipo de distração, sorriso, qualquer sentimento que a tirasse de sua inércia. No entanto, nada parecia funcionar. E um dia a jovem deu passos pesados até o parapeito da janela. Com um olhar sem brilho algum, falou "Sabe, Luciano, a única coisa que quero é me jogar". Desesperado, ele arrancou toda a força que tinha em seu pequeno corpo e gritou "Não faça isso, me beije, quem sabe eu não me torne um homem de verdade, alguém pra te fazer companhia, não se jogue, por favor". Ela olhou com espanto. Depois de alguns minutos paralisada, setenciou "Estou ficando louca mesmo, não me restam alternativas".
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Sexta-feira , Outubro 18, 2002
A frase em negrito foi enviada por Breno Pessoa
Você telefona todas as tardes para perguntar se está tudo bem. Exatamente às quatro horas da tarde. Às vezes quatro e quinze, quatro e vinte. Nos primeiros meses, ela esperava ansiosamente a sua ligação. Nem contava tudo o que havia acontecido em sua manhã durante o almoço apenas para ter o que conversar com você. Mas agora o seu telefonema funciona como um despertador. É hora de levantar da frente da televisão, arrumar o apartamento, pensar no cardápio para jantar. Oi, tá tudo bem?, você pergunta nesta tarde de quinta-feira. Tá, tá, responde ela fingindo estar contente em ouvir a sua voz. Bom, se precisar de alguma coisa, sei lá, se quiser que eu passe no super, é só dizer, você diz em mais uma tentativa de ser um bom marido. Ela suspira, olha atentamente para a sala, não reconhece o sorriso de vocês dois nas fotografias pregadas na parede. Por alguns segundo sente vontade de pedir socorro ou dizer que nada está bem. Daria toda a minha vida por um pouco de insensibilidade, ela pensa. Mas não há mais nada que possa fazer. Não, não preciso de nada, responde. Depois que desliga o telefone, enquanto você joga paciência no computador da empresa, ela caminha até a cozinha. Quando percebe que a sua vida não vale qualquer troca, corta o dedo com a faca para carnes. Mas não sente dor.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Quarta-feira, Outubro 16, 2002
A frase em negrito foi enviada por Carminha
Nós costumávamos escrever versos na calçada da rua. Marina batia palmas à frente da varanda de casa, eu desligava a televisão e, num grito, avisava a minha mãe que estava saindo. Vê-la ali, esperando por mim perto dos degraus de tijolo vermelho escuro, com os cabelos presos em uma longa trança, era a melhor parte do meu dia. Não sabia o que significavam aquelas alfinetadas na barriga cada vez que Marina sorria e dizia "Caco, hoje tenho novos poeminhas pra rabiscar". A minha principal função era ficar sentado ao lado da caixa de giz, cuidando dos carros que passavam. Mas de vez em quando, escrevia alguns versos. Ela ria das minhas pobres palavras, que saíam tortas feito letrinhas de crianças de três anos de idade. Até que ela escreveu "pensei que era a lua, era o reflexo da luz na rua". Naquela noite, fui dormir com o verso na cabeça. Pensava em Marina, olhava a lua pela janela do meu quarto, sentia os alfinetes na barriga. Desci as escadas com pressa, mas em silêncio para não acordar os meus pais, peguei um pedaço de giz azul e fui até a calçada. Procurei o verso de Marina, torcendo para que não estivesse apagado. E, ainda bem, ele continuava lá, vivo, piscando na madrugada. Com a minha péssima caligrafia, completei o poeminha com "e quando pensei que fosse a lua, era o brilho da minha boca na sua". Fui dormir orgulhoso, feliz com as minhas palavras. Mas no outro dia Marina não foi me buscar para rabiscarmos na calçada. Nem no outro e no outro e no outro. Até hoje sinto as alfinetadas na barriga quando passo pela rua em que cresci. A diferença é que agora sei o que significam. E o que era para ser um poema, acabou se tornando dois versos solteiros perdidos no asfalto.
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Segunda-feira, Outubro 14, 2002
A frase em negrito foi enviada por Greta
Eu nasci para ser puta, mas acabei me tornando uma esposa bem comportada. De nada adianta você ser hippie, chapada e vagabunda se a sua mãe coloca em suas mãos o futuro financeiro da família. Nunca achei original aplicar um golpe do baú, mas ninguém estava muito a fim de trabalhar, muito menos pensar. Sobrou para mim, claro. As melhores pernas, a cintura mais fina, a barriguinha mais sexy, a boca mais gostosa. Já comi coisa pior, pensei. Acabei entrando nessa. Só que, ironia das ironias, me apaixonei pelo cara. O meu destino sofre de falta de imaginação, você bem pode ver. E o maldito, depois de dez anos e dois filhos lindos, agora nem olha mais para mim. O que eu fiz? Ora, fiz o que toda esposa de milionário faz. Virei uma bêbada obcecada por limpeza. Tão obcecada que um dia me peguei arrumando a casa às quatro da manhã. E olha que havíamos contrato seis domésticas. Então, eu estava lá, limpando a casa ao som de Santana, com um shortinho rasgado, me imaginando uma empregadinha sexy. Rebolava, dançava, brincava com o cano do aspirador em pó. De repente, o maldito entra em casa. Cheirando a sabonete de motel. Ok, há anos que não ia a um motel, mas aquele cheiro é algo que não se esquece tão fácil. Ele ficou ali, parado na porta, com a chave do carro na mão, olhando para mim. Nossa, Silvana, cê tá gostosa, ele me disse. Desliguei a porra do aspirador de pó. Não poderia ser verdade. O que cê falou?, perguntei. Cê tá gostosa, muito gostosa, ele falou. Esqueci o ridículo, obedeci o meu tesão, e coloquei o cano do aspirador na boca. O maldito pulou em cima de mim e me comeu ali no meio da sala, eu de quatro na mesinha de centro. No outro dia, ele demitiu as seis empregadas. As crianças estranharam um pouco, mas logo se acostumaram com a mãe dormindo no quartinho dos fundos. É, o meu destino pode até não ter imaginação. Mas, graças a Deus, não falha nunca.
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Quinta-feira, Outubro 10, 2002
A frase em negrito foi enviada por Steca
O dom da hipnose havia sido passado de geração a geração, desde que o primeiro Fontoura descobrira que era capaz de dominar uma mulher somente com o movimento da íris. Era um segredo entre os homens, revelado no décimo-sexto aniversário do herdeiro. Um segredo que poderia atravessar mais algumas décadas, não fosse a desgraça ter caído sobre Júlio Fontoura. Nas cinco vezes que a sua esposa ficara grávida, cinco mulheres nasceram. Nada mais poderia fazer a não ser ver a corrente ser quebrada. Então, no dia em que sua primogênita completaria dezesseis anos, Júlio a tirou para dançar no baile de decoração clássica no Jóquei Clube da cidade. "Minha filha", ele disse, "não sou um homem de grande conhecimento, não sou tão inteligente quanto deveria ser, mas, como pai, preciso alertá-la: nunca olhe diretamente nos olhos de um homem". "Por que papai?", perguntou Maria, a aniversariante. "Porque alguns têm o poder de convencê-la a fazer o que bem desejam". Se os Fontoura tiveram o dom, outras famílias também deveria ter, assim pensava Júlio. E não gostaria de saber que a sua filha poderia se casar com alguém apenas porque havia sido hipnotizada, sem amor algum, como acontecera com a sua esposa. O tempo passou, e Maria nunca esqueceu o conselho de seu pai, agora descansando em cinzas sobre o mar do Atlântico. Apaixonou-se por cinco ou seis homens, mas nada aconteceu. O último, um médico chamado Sílvio de Matos, não entendia a atitude de Maria. Ela dizia que o amava, mas por que nunca olhava nos olhos dele? Como uma mulher era capaz de ser tão fria? Maria, enfim, faleceu sozinha em um sanatório no Rio de Janeiro. No enterro, para a surpresa de todos, não estavam presentes apenas os cinco ou seis homens por quem ela se apaixonara, mas centenas de senhores vestidos com os seus melhores ternos, todos espremendo-se para dar o último adeus à Maria. As palavras de Sílvio de Matos resumiram tudo: "Sabe, meu amigo, era só ela passar os olhos por nós e pronto. Estávamos todos hipnotizados".
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Quarta-feira, Outubro 09, 2002
A frase em negrito foi enviada por Juliana
Ele senta sobre a areia. Brinca com os grãos enquanto a espera. Está atrasada quinze, vinte minutos. Há seis meses um minuto era o suficiente para deixá-lo irritado. Mas ali, entre o calçadão preto e branco e o mar de tons esverdeados, os minutos perdem a importância. Cantarola uma música qualquer, sorri para as crianças que voltam para a casa depois de uma tarde na praia, olha com malícia para uma ou duas mulheres que caminham de biquíni. Ela chega devagar, calma, como se não tivesse passado oito horas dentro de um escritório. Tira os sapatos, deita a cabeça sobre o seu ombro, tenta descobrir onde o seu olhar está perdido. "Hoje, enquanto te esperava, eu vi mudar...", disse ele. "Mudar o quê?", perguntou ela com a voz baixa. "O antes pro depois, o ontem pro agora, o eu e você pra nós dois", respondeu ele ao mesmo tempo em que a abraçava. E, assim, um sentindo o calor do outro, deixaram que o mar preenchesse os espaços vazios do que ele dissera. Às vezes mudamos simplesmente sem saber por quê.
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