Sexta-feira , Janeiro 17, 2003
A frase em negrito foi enviada por Joice
Ela seguiu as pegadas antes que o mar as levassem embora. Assim, sem saber quem iria encontrar, se iria encontrar, se encontrar ainda fazia parte de seu dicionário. Não escolheu, apenas aceitou o caminho que a areia lhe mostrava. O cheiro de chuva e sal, o sol mergulhando sobre as ondas e o relógio avisando que era hora de estar em casa. Mas já não podia voltar. Procurou as cores no céu, lembrou de uma velha canção que dizia "você é o arco-íris em minha alma", mas, dessa vez, a tempestade não trouxe consigo a bonança. A resposta, quem sabe, estaria ali, no final daquelas pegadas, sob os pés que sustentavam a esperança disfarçada de carne. Ele disse que se chamava Carlos, quis saber se havia espaço debaixo de seu guarda-sol. "É só uma chuvinha de nada", falou, "mas, você vê como são as coisas, não tenho medo do mar, mas tenho medo da chuva". Ela sorriu, arrastou a sua cadeira para o lado, fechou o livro, teve vontade de dizer que não sabia nadar, mas achou bobagem, que ele não fosse entender a piada. Quinze, vinte, trinta minutos. Ela perdeu a noção de tempo enquanto desejou aquela pele desbotada deixando pequenas manchas de calor sobre o dourado de suas pernas. Mas nada disse. "Obrigado", ele agradeceu quando a chuva se foi, "obrigado". E levantou sem olhar para trás, deixando na areia as pegadas que aqui terminam. Pedras, castelos de areia, crianças correndo, um pequeno desespero, e, de repente, o mar levou os seus olhos para onde temiam chegar. Teve medo de ir mais longe, mas tudo o que queria era molhar o seu corpo junto ao dele. "Que se foda", disse para si mesma. Sim, ela poderia se afogar por entre as ondas. Mas, você sabe, ninguém morre duas vezes.
Posted at 20:55 by spectorama (que agradece a sua leitura) :: link

