Quarta-feira, Março 12, 2003
A frase em negrito foi enviada por Vicente Ribeiro
O seu cachecol dá uma volta ao mundo, o seu pescoço, onde os meus dentes desejariam estar, mas não sinto o mesmo frio que você. Tenho somente um fio de suor em minha testa, e nem sei se posso colocar a culpa no calor dessa cidade cinzenta. Talvez seja a sua lembrança, de vinte e seis minutos de eternidade, que me deixa assim, nervoso, ansioso, sorridente e culpado. Mas esqueceria tudo pelo frio de peles nuas ao seu lado, casacos de couro jogados na cadeira, e a minha língua descendo o seu nariz feito um tobogã, desaguando em seus lábios, sua boca, sua saliva. A primavera está chegando, você diz, e pelo lado de cá tudo continua igual. E às vezes me pego sozinho, esperando um sinal divino, uma palavra qualquer. Cadê a minha vida que estava aqui, eu pergunto em voz alta. No entanto, você não pode me ouvir. Apenas fecha os botões de seu casaco, arruma o cachecol, há tanta coisa para fazer, afinal. Vida que segue. Meu mundo que vai.
posted at 11:38 by spectorama ::
Terça-feira, Março 11, 2003
A frase em negrito foi enviada por Eleonora Plath
Frank morreu enquanto eu temperava a salada. Você coloca muito sal, Gertrude. Ajeitei o meu corpo na cadeira do restaurante, coloquei os talheres sobre o guardanapo, e olhei para aqueles olhos enormes como se dissesse que não havia entendido nada. Você já deveria saber que isso faz mal a sua saúde. Senti a TPM urrar dentro de mim. Por que você me critica? Ele sorriu, passou os dedos por entre os parafusos de sua testa, e suspirou. Odeio quando você suspira, odeio, odeio, parece que tá dizendo que tô tendo outros dos meus ataques, mas é verdade, é verdade, caralho, você só me critica, nada do que faço tá bom, nada, nem parece que o monstro aqui é você. Imediatamente, Frank começou a chorar. Levantou da mesa, saiu do restaurante em silêncio, não olhou para trás. Maldita TPM dos infernos. Saí atrás dele. Espera, Frank, espera amor, desculpe, não queria dizer aquilo. Mas ele caminhava sem dar atenção às minhas palavras. Acompanhei os seus passos por dois quarteirões até que ele parou em frente a uma grande avenida. Eu tenho coração, se é que você não sabe, Gertrude. Quis me ajoelhar, mas o orgulho me impediu. E, de repente, eu e Frank atravessamos a rua sem querer. Tudo aconteceu muito rápido: um ônibus arremessou o seu corpo para longe, longe, longe. Corri em sua direção. Abracei o seu corpo encharcado de sangue. Eu te amo, Frank, eu te amo. Antes que os seus olhos se fechassem pude ouvir as suas últimas palavras. Não esqueça, meu amor, aconteça o que acontecer, você será sempre a minha Gertrude Stein.
posted at 13:05 by spectorama ::

