Quarta-feira, Abril 09, 2003
A frase em negrito foi enviada por Duffy
Ele escreveu sobre a sua vida desde que decidiu que iria viver das letras. Sabia que lhe faltava talento, mas os escitores haviam se tornado os roqueiros do novo século. E, na falta de assunto, decidiu que ele seria o seu único personagem. O seu editor acreditava que era uma aposta em vão, que o umbiguismo já não estava mais na moda, que os leitores queriam saber apenas de releituras das histórias da Bíblia. Mas depois de tanto insistir, ele conseguiu publicar o seu primeiro romance. Para a surpresa de todos, o livro foi um sucesso de vendas. Assim como os outros quinze títulos que lançara. O fato é que todas as pessoas queriam estar ao seu redor para que também se tornassem personagens de seus livros. Ele já não tinha mais amigos ou namoradas de verdade. Todos queriam apenas aparecer, ter os seus minutos de fama, e depois escrever uma versão diferente da história. Até que ele se apaixonou de verdade. Como nunca achou que fosse se apaixonar. Decidiu, então, que seria diferente. Aquela mulher não seria a sua personagem. E, pela primeira vez, lançou um livro de ficção. Na noite de autógrafos, ela entrou no bar correndo, irritada, segurando um exemplar do novo romance. Chorando, gritou "Responda rápido: será que as minhas frases são tão ruins que você nunca pode usá-las?". E saiu sem olhar para trás. Desse dia em diante, ele nunca mais escreveu uma linha. Às vezes o melhor que podemos fazer é simplesmente assumir que não temos talento.
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Quinta-feira, Abril 03, 2003
A frase em negrito foi enviada por Foguinho
O telefone toca. Uma conversa que se transforma. Palavras que são cuspidas. Sentimentos inversos. Ofensas sem sentido. O homem levanta de sua mesa. Passa reto pela recepção. Foda-se o trabalho. Fodam-se as contas. Foda-se a responsabilidade. O sol queima lá fora. Ao longe existe uma nuvem escura. É para lá. Este é o destino. O asfalto se torna terra. Os prédios agora são árvores gigantes. O povo é apenas silêncio. Uma semana se passa. E o homem continua parado debaixo da nuvem. A chuva chega apenas no oitavo dia. Só então a dor passa. Ele é a dor. Às vezes chove até que todas as pessoas fiquem cinza-azulado. Pronto. Agora ele já pode descansar. Um cacto de braços abertos no deserto. Uma flor. Um pássaro. Um tronco. Um adeus.
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Quarta-feira, Abril 02, 2003
A frase em negrito foi enviada por Naine
As paredes pararam de suar há duas semanas. Os livros, os discos, as revistas, os restos de nossa religião espalham-se pelo chão. Desvio das lembranças, abro as janelas, deixo as nuvens invadirem o teto. A dor da perda criou raízes neste apartamento. O telefone na porta da geladeira, imãs sem atração, o que é preciso fazer para continuar? Você desligou o relógio. O tempo, antes infinito, agora é apenas um segundo que preencho com banalidades sem poesia. Vou cortar os cabelos, fazer a barba, escovar os dentes. Prometo não jantar mais na hora do almoço e almoçar na hora da janta. Tudo vai ficar bem, você sabe. Penso nas suas palavras. Quando chegar o inverno é melhor deixar os pássaros irem embora em busca de um novo verão, você repetia. Mas não sou feito de quatro estações. Sou apenas um. E nem ao menos sei voar. Apenas aprendi a cair. O asfalto, sim, agora é hora do asfalto suar.
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Terça-feira, Abril 01, 2003
A frase em negrito foi enviada por Jean Ferreira
Número 3589 chora sentada sobre os anéis de Saturno. As suas engrenagens ardem e emitem ruídos estridentes a cada movimento. Um rastro de fogo por entre as estrelas e logo Número 9901 está ao seu lado. "Robôs não foram programados pra chorar, sabia?", diz ele com uma voz suave. Há três dias conseguiu que o seu sistema de comunicações emulasse a voz de James Dean. Era o que faltava para que tivesse coragem suficiente para se aproximar 3589. "Eu sou uma estúpida, 9901", soluça ela, "bem que me avisaram pra não instalar o software dos contos de fadas, mas não, tenho que ser assim teimosa, e, droga, acreditei que o cafajeste do 2226 fosse o meu príncipe encantado". 9901 sente uma vontade súbita de voar mais alguns quilômetros e tirar satisfação daquele robô insensível. Mas é preciso fazer companhia para 3589. "Sabe, eu não me importaria de não estar com ele, mas por que, então, o idiota teve que me encher de esperança?", ela continua, "e o pior é que, mesmo depois de ter reiniciado o meu computador interno, ainda sinto dor, estou ficando louca de tanto chorar". Comovido, 9901 abraça o corpo dourado de 3589. Devagar, engata os dedos nos botões de suas costas. De repente, ambos trocam informações em silêncio. São apenas códigos e senhas e scripts que dizem "não chore mais, porque se é louca, a sua loucura desejo, porque a sua loucura expulsa a minha e faz de minha mente a sua sala de jogos, com castelos, cavalos, flores, lua, lagos e dragões". Mas as lágrimas de 3589 não cessam. E, nos braços de 9901, aos poucos ela perde todos os seus dados. Não há mais nada a fazer. Desolado, 9901, também deseja chorar. Mas respira fundo ao lembrar que ainda não produziram um programa mais eficiente contra a ferrugem.
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