Sexta-feira , Julho 25, 2003
A frase em negrito foi enviada por Helena
As jóias não brilham mais, os rabiscos agora traçam sonhos esquecidos, o centro de São Paulo parece pequeno para tantos quereres. Você diz que está atrasada, que o médico está lhe esperando, inventa uma mentira qualquer, coloca o seu sanduíche na bolsa e procura algum lugar tranqüilo no meio do caos. E é assim que a vejo pela primeira vez, dobrando os guardanapos com cuidado, acomodando o corpo no banco dessa praça cinzenta. Eu quero chegar mais perto, peguntar que recheio as fatias de pão escondem, dizer que quero dividir um almoço, um suco, duas horas antes de mais uma tarde trancado no escritório. Mas tudo o que consigo fazer é dar cinco passos à frente e dizer "Menina, você me dá paz". Os seus lábios abrem, os seus dentes brilham, os seus olhos tentam entender por que se sente feliz em ouvir loucuras de um desconhecido. "Engraçado você dizer isso", fala, "porque aqui dentro só existe desespero". Sem saber exatamente o que estou fazendo, estendo a minha mão. "Me dê quinze minutos com você", peço, "apenas quinze minutos". Desconfiada, você pergunta "E o que nós podemos fazer em quinze minutos?". Respiro fundo. "A gente pode andar de pés descalços, contar piadas estúpidas, trocar segredos, mentir sobre o nosso passado, inventar identidades secretas, fugir dos compromissos, esquecer de pagar as contas, brincar de esconde-esconde, estourar o limite do cartão de crédito, dançar hits dos anos 80, cortar os cabelos, fazer biquinho, beber três latas de cerveja, matar o nosso desespero com pequenas doses de carinho", respondo. Você fecha o zíper de sua jaqueta. Enrola novamente o sanduíche no guarnadapo e segura a minha mão. "Nossa, quanta coisa", diz, "é melhor eu guardar o sanduíche pra depois... vai que a gente fique com fome".
posted at 11:07 by spectorama ::

