Quinta-feira, Março 18, 2004
A frase em negrito foi enviada por Lê
Somos personagens de histórias em quadrinhos. Desenhos e diálogos de um mundo que parecia não existir. O que é real? O que é verdade? O que é fantasia? Pulamos de quadro em quadro, de balão em balão. E fico assim, ansioso, esperando para descobrir os meus superpoderes. Será que o autor irá atender aos meus pedidos? Eu não quero força, não quero inteligência, não quero mágica. Não quero salvar o mundo, não quero prender ladrões, não quero derrotar inimigos. Tudo o que preciso é de uma mocinha para dar sentido à minha vida. Só isso. E ter o poder de atender as suas expectativas. Quero ser o homem que a abraça durante 12 horas de sono. Quero ser o homem que a faz sorrir com meia dúzia de palavras. Quero ser o homem que descobre o impossível em seu corpo. Quero ser o homem que inspira as suas jóias. Mas o que quero, acima de tudo, é ter alguém para revelar a minha identidade secreta. Aqui, agora, sempre. E sem ponto final, por favor.
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Sexta-feira , Novembro 14, 2003
A frase em negrito foi eviada por Ele
A saudade entra no momento em que você fecha a porta. Aproveita o meu descuido ao pegar o jornal em cima do tapete e invade o meu apartamento. Assim, sem pedir, sem avisar. E me acompanha pela casa, pelo quarto, pelo banheiro. Queima a minha pele quando sinto a água quente do chuveiro. Agarra o meu pescoço enquanto me seco. Beija o meu peito no momento em que me visto. E quando me olho no espelho, lá está ela. A saudade que chega tão rápido, e que me consome segundo a segundo nesta sua ausência que parece não ter fim até você colocar um fim. Porque você é as letras, as palavras, as frases, os parágrafos, os diálogos de meus textos. É o ponto de exclamação que me faz querer mais, e é a vírgula para que eu possa recuperar a respiração cada vez que lhe vejo. Sem você agora existem apenas páginas em branco. Sem você o meu dicionário possui um único verbete. Por isso, venha logo. Preciso abrir a porta para você entrar. E deixar que a saudade fique lá fora, ouvindo a música de nossa paixão.
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Quinta-feira, Novembro 06, 2003
A frase em negrito foi enviado por Moço
Quando você acordar vai sentir o caminho dos meus dedos pelas suas costas. Quando você acordar vou olhar no espelho e não reconhecer o meu passado. Quando você acordar o meu coração estará aos pedaços ao lado da cama esperando para que junte os cacos. Quando você acordar verá o rastro de minha perna nas suas coxas. Quando você acordar o mundo todo irá parar para vê-la abrindo os olhos. Quando você acordar o seu rosto estará marcado pelos beijos que não dei. Quando você acordar irei olhar o presente no seu brilho esverdeado. Quando você acordar todos os DJs do mundo irão tocar a mesma música. Quando você acordar o sol vai finalmente aparecer. Quando você acordar os seus cabelos serão 1977 e a minha paixão 1989. Quando você acordar vou começar a dedicar a minha vida para encontrar uma nova definição para o sexo. Quando você acordar o relógio do meu desejo irá despertar. Quando você acordar o meu sorriso irá congelar. Quando você acordar a sua boca na minha, menina, quando você acordar eu já terei escrito todo este texto na ponta da língua, dos seus pés à cabeça.
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Sexta-feira , Julho 25, 2003
A frase em negrito foi enviada por Helena
As jóias não brilham mais, os rabiscos agora traçam sonhos esquecidos, o centro de São Paulo parece pequeno para tantos quereres. Você diz que está atrasada, que o médico está lhe esperando, inventa uma mentira qualquer, coloca o seu sanduíche na bolsa e procura algum lugar tranqüilo no meio do caos. E é assim que a vejo pela primeira vez, dobrando os guardanapos com cuidado, acomodando o corpo no banco dessa praça cinzenta. Eu quero chegar mais perto, peguntar que recheio as fatias de pão escondem, dizer que quero dividir um almoço, um suco, duas horas antes de mais uma tarde trancado no escritório. Mas tudo o que consigo fazer é dar cinco passos à frente e dizer "Menina, você me dá paz". Os seus lábios abrem, os seus dentes brilham, os seus olhos tentam entender por que se sente feliz em ouvir loucuras de um desconhecido. "Engraçado você dizer isso", fala, "porque aqui dentro só existe desespero". Sem saber exatamente o que estou fazendo, estendo a minha mão. "Me dê quinze minutos com você", peço, "apenas quinze minutos". Desconfiada, você pergunta "E o que nós podemos fazer em quinze minutos?". Respiro fundo. "A gente pode andar de pés descalços, contar piadas estúpidas, trocar segredos, mentir sobre o nosso passado, inventar identidades secretas, fugir dos compromissos, esquecer de pagar as contas, brincar de esconde-esconde, estourar o limite do cartão de crédito, dançar hits dos anos 80, cortar os cabelos, fazer biquinho, beber três latas de cerveja, matar o nosso desespero com pequenas doses de carinho", respondo. Você fecha o zíper de sua jaqueta. Enrola novamente o sanduíche no guarnadapo e segura a minha mão. "Nossa, quanta coisa", diz, "é melhor eu guardar o sanduíche pra depois... vai que a gente fique com fome".
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Quarta-feira, Abril 09, 2003
A frase em negrito foi enviada por Duffy
Ele escreveu sobre a sua vida desde que decidiu que iria viver das letras. Sabia que lhe faltava talento, mas os escitores haviam se tornado os roqueiros do novo século. E, na falta de assunto, decidiu que ele seria o seu único personagem. O seu editor acreditava que era uma aposta em vão, que o umbiguismo já não estava mais na moda, que os leitores queriam saber apenas de releituras das histórias da Bíblia. Mas depois de tanto insistir, ele conseguiu publicar o seu primeiro romance. Para a surpresa de todos, o livro foi um sucesso de vendas. Assim como os outros quinze títulos que lançara. O fato é que todas as pessoas queriam estar ao seu redor para que também se tornassem personagens de seus livros. Ele já não tinha mais amigos ou namoradas de verdade. Todos queriam apenas aparecer, ter os seus minutos de fama, e depois escrever uma versão diferente da história. Até que ele se apaixonou de verdade. Como nunca achou que fosse se apaixonar. Decidiu, então, que seria diferente. Aquela mulher não seria a sua personagem. E, pela primeira vez, lançou um livro de ficção. Na noite de autógrafos, ela entrou no bar correndo, irritada, segurando um exemplar do novo romance. Chorando, gritou "Responda rápido: será que as minhas frases são tão ruins que você nunca pode usá-las?". E saiu sem olhar para trás. Desse dia em diante, ele nunca mais escreveu uma linha. Às vezes o melhor que podemos fazer é simplesmente assumir que não temos talento.
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Quinta-feira, Abril 03, 2003
A frase em negrito foi enviada por Foguinho
O telefone toca. Uma conversa que se transforma. Palavras que são cuspidas. Sentimentos inversos. Ofensas sem sentido. O homem levanta de sua mesa. Passa reto pela recepção. Foda-se o trabalho. Fodam-se as contas. Foda-se a responsabilidade. O sol queima lá fora. Ao longe existe uma nuvem escura. É para lá. Este é o destino. O asfalto se torna terra. Os prédios agora são árvores gigantes. O povo é apenas silêncio. Uma semana se passa. E o homem continua parado debaixo da nuvem. A chuva chega apenas no oitavo dia. Só então a dor passa. Ele é a dor. Às vezes chove até que todas as pessoas fiquem cinza-azulado. Pronto. Agora ele já pode descansar. Um cacto de braços abertos no deserto. Uma flor. Um pássaro. Um tronco. Um adeus.
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Quarta-feira, Abril 02, 2003
A frase em negrito foi enviada por Naine
As paredes pararam de suar há duas semanas. Os livros, os discos, as revistas, os restos de nossa religião espalham-se pelo chão. Desvio das lembranças, abro as janelas, deixo as nuvens invadirem o teto. A dor da perda criou raízes neste apartamento. O telefone na porta da geladeira, imãs sem atração, o que é preciso fazer para continuar? Você desligou o relógio. O tempo, antes infinito, agora é apenas um segundo que preencho com banalidades sem poesia. Vou cortar os cabelos, fazer a barba, escovar os dentes. Prometo não jantar mais na hora do almoço e almoçar na hora da janta. Tudo vai ficar bem, você sabe. Penso nas suas palavras. Quando chegar o inverno é melhor deixar os pássaros irem embora em busca de um novo verão, você repetia. Mas não sou feito de quatro estações. Sou apenas um. E nem ao menos sei voar. Apenas aprendi a cair. O asfalto, sim, agora é hora do asfalto suar.
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Terça-feira, Abril 01, 2003
A frase em negrito foi enviada por Jean Ferreira
Número 3589 chora sentada sobre os anéis de Saturno. As suas engrenagens ardem e emitem ruídos estridentes a cada movimento. Um rastro de fogo por entre as estrelas e logo Número 9901 está ao seu lado. "Robôs não foram programados pra chorar, sabia?", diz ele com uma voz suave. Há três dias conseguiu que o seu sistema de comunicações emulasse a voz de James Dean. Era o que faltava para que tivesse coragem suficiente para se aproximar 3589. "Eu sou uma estúpida, 9901", soluça ela, "bem que me avisaram pra não instalar o software dos contos de fadas, mas não, tenho que ser assim teimosa, e, droga, acreditei que o cafajeste do 2226 fosse o meu príncipe encantado". 9901 sente uma vontade súbita de voar mais alguns quilômetros e tirar satisfação daquele robô insensível. Mas é preciso fazer companhia para 3589. "Sabe, eu não me importaria de não estar com ele, mas por que, então, o idiota teve que me encher de esperança?", ela continua, "e o pior é que, mesmo depois de ter reiniciado o meu computador interno, ainda sinto dor, estou ficando louca de tanto chorar". Comovido, 9901 abraça o corpo dourado de 3589. Devagar, engata os dedos nos botões de suas costas. De repente, ambos trocam informações em silêncio. São apenas códigos e senhas e scripts que dizem "não chore mais, porque se é louca, a sua loucura desejo, porque a sua loucura expulsa a minha e faz de minha mente a sua sala de jogos, com castelos, cavalos, flores, lua, lagos e dragões". Mas as lágrimas de 3589 não cessam. E, nos braços de 9901, aos poucos ela perde todos os seus dados. Não há mais nada a fazer. Desolado, 9901, também deseja chorar. Mas respira fundo ao lembrar que ainda não produziram um programa mais eficiente contra a ferrugem.
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Quarta-feira, Março 12, 2003
A frase em negrito foi enviada por Vicente Ribeiro
O seu cachecol dá uma volta ao mundo, o seu pescoço, onde os meus dentes desejariam estar, mas não sinto o mesmo frio que você. Tenho somente um fio de suor em minha testa, e nem sei se posso colocar a culpa no calor dessa cidade cinzenta. Talvez seja a sua lembrança, de vinte e seis minutos de eternidade, que me deixa assim, nervoso, ansioso, sorridente e culpado. Mas esqueceria tudo pelo frio de peles nuas ao seu lado, casacos de couro jogados na cadeira, e a minha língua descendo o seu nariz feito um tobogã, desaguando em seus lábios, sua boca, sua saliva. A primavera está chegando, você diz, e pelo lado de cá tudo continua igual. E às vezes me pego sozinho, esperando um sinal divino, uma palavra qualquer. Cadê a minha vida que estava aqui, eu pergunto em voz alta. No entanto, você não pode me ouvir. Apenas fecha os botões de seu casaco, arruma o cachecol, há tanta coisa para fazer, afinal. Vida que segue. Meu mundo que vai.
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Terça-feira, Março 11, 2003
A frase em negrito foi enviada por Eleonora Plath
Frank morreu enquanto eu temperava a salada. Você coloca muito sal, Gertrude. Ajeitei o meu corpo na cadeira do restaurante, coloquei os talheres sobre o guardanapo, e olhei para aqueles olhos enormes como se dissesse que não havia entendido nada. Você já deveria saber que isso faz mal a sua saúde. Senti a TPM urrar dentro de mim. Por que você me critica? Ele sorriu, passou os dedos por entre os parafusos de sua testa, e suspirou. Odeio quando você suspira, odeio, odeio, parece que tá dizendo que tô tendo outros dos meus ataques, mas é verdade, é verdade, caralho, você só me critica, nada do que faço tá bom, nada, nem parece que o monstro aqui é você. Imediatamente, Frank começou a chorar. Levantou da mesa, saiu do restaurante em silêncio, não olhou para trás. Maldita TPM dos infernos. Saí atrás dele. Espera, Frank, espera amor, desculpe, não queria dizer aquilo. Mas ele caminhava sem dar atenção às minhas palavras. Acompanhei os seus passos por dois quarteirões até que ele parou em frente a uma grande avenida. Eu tenho coração, se é que você não sabe, Gertrude. Quis me ajoelhar, mas o orgulho me impediu. E, de repente, eu e Frank atravessamos a rua sem querer. Tudo aconteceu muito rápido: um ônibus arremessou o seu corpo para longe, longe, longe. Corri em sua direção. Abracei o seu corpo encharcado de sangue. Eu te amo, Frank, eu te amo. Antes que os seus olhos se fechassem pude ouvir as suas últimas palavras. Não esqueça, meu amor, aconteça o que acontecer, você será sempre a minha Gertrude Stein.
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Quarta-feira, Fevereiro 19, 2003
A frase em negrito foi enviada por Keka
Tenho o mundo dentro de mim, mas às vezes parece que tudo se resume em uma única esquina. Você pede para eu ficar, diz palavras bonitas, sorri desse jeito quase infantil. E talvez seja isso mesmo o que somos. Duas crianças brincando de marido e mulher, como vizinhos que fingem que as bonecas são os seus filhos. Mas agora é tarde, escureceu, está na hora de voltar para a casa. Quero as árvores da Doutor Timóteo, quero o cachorro quente do Rosário, quero o colo de minha mãe, quero o chimarrão no Parcão, quero a Ipiranga vazia em uma madrugada de quinta-feira, quero a incerteza de um inverno gelado. Desejo tudo o que você não pode me dar, e sei que o você pode me dar é tudo o que um dia desejei. Mas hoje eu queria voltar para Porto Alegre. Esta é a minha manha, esta é a minha lágrima, este é o meu solução no meio da noite. Você pode ficar aí, parado, quieto, desiludido, com o orgulho ferido. Ou então, quem sabe, pode decidir dobrar a esquina. É só um passo. E a minha cidade é sua.
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Sexta-feira , Janeiro 17, 2003
A frase em negrito foi enviada por Joice
Ela seguiu as pegadas antes que o mar as levassem embora. Assim, sem saber quem iria encontrar, se iria encontrar, se encontrar ainda fazia parte de seu dicionário. Não escolheu, apenas aceitou o caminho que a areia lhe mostrava. O cheiro de chuva e sal, o sol mergulhando sobre as ondas e o relógio avisando que era hora de estar em casa. Mas já não podia voltar. Procurou as cores no céu, lembrou de uma velha canção que dizia "você é o arco-íris em minha alma", mas, dessa vez, a tempestade não trouxe consigo a bonança. A resposta, quem sabe, estaria ali, no final daquelas pegadas, sob os pés que sustentavam a esperança disfarçada de carne. Ele disse que se chamava Carlos, quis saber se havia espaço debaixo de seu guarda-sol. "É só uma chuvinha de nada", falou, "mas, você vê como são as coisas, não tenho medo do mar, mas tenho medo da chuva". Ela sorriu, arrastou a sua cadeira para o lado, fechou o livro, teve vontade de dizer que não sabia nadar, mas achou bobagem, que ele não fosse entender a piada. Quinze, vinte, trinta minutos. Ela perdeu a noção de tempo enquanto desejou aquela pele desbotada deixando pequenas manchas de calor sobre o dourado de suas pernas. Mas nada disse. "Obrigado", ele agradeceu quando a chuva se foi, "obrigado". E levantou sem olhar para trás, deixando na areia as pegadas que aqui terminam. Pedras, castelos de areia, crianças correndo, um pequeno desespero, e, de repente, o mar levou os seus olhos para onde temiam chegar. Teve medo de ir mais longe, mas tudo o que queria era molhar o seu corpo junto ao dele. "Que se foda", disse para si mesma. Sim, ela poderia se afogar por entre as ondas. Mas, você sabe, ninguém morre duas vezes.
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Terça-feira, Dezembro 17, 2002
A frase em negrito foi enviada por Lea
Eu perco você todos os dias, e, mesmo assim, pela manhã sempre volto a lhe procurar, tropeçando pela calçada, gritando o seu nome, arrastando o meu desejo por entre as paredes sujas de uma cidade em decadência, perseguindo as sombras de suas curvas, guiado pelo cheiro do mar, o sal de sua pele, o gosto do seu beijo, e quando você me olha é sempre assim, Muito prazer, meu nome é Ana, acho que já o vi em algum lugar, e tenho vontade de falar Sim, há meses que nos encontramos, há meses que dedico a minha vida a você, há meses que tento entender os caminhos de sua memória, mas não digo nada, apenas deixo que o meu sorriso lhe inspire confiança, e espero o momento em que você irá me contar toda a sua não história novamente, aguardo as suas lágrimas para que os meus dedos toquem pela primeira vez o seu rosto, tremo cada vez que você me olha como se perguntasse Seu idiota, você não vai me beijar não?, e então você diz Estão inventando meu passado agora, sou como uma personagem à espera de seu escritor, e nossas mãos se tocam, e nossos poros se procuram, eu me jogo aos seus pequenos pés e repito Quero fazer de nossa vida um livro, de passado, presente e futuro, mas quando acordo você já não está mais lá, e enquanto bebo sozinho o meu café antes de sair em sua busca, olho para todos livros de minha biblioteca, suspiro e rezo a Deus para que um dia todos possam ler a nossa história.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Quarta-feira, Dezembro 04, 2002
A frase em negrito foi enviada por Tatiane F
Eu falei que não era como os outros. Você sorriu, assim de um jeito cúmplice, e, segurando a minha mão, disse sem dizer que acreditava em mim. Nem percebeu o clichê da frase, ignorou com risadas o fato de eu ser tão ordinário quanto os outros. Mas já estávamos velhos e cansados e despedaçados demais para esperar por pessoas diferentes, especiais, que nos deixariam sem fôlego, mas que, no final, revelariam-se iguais a nós. E então abrimos a porta. Deixei que você contasse histórias para eu dormir, gargalhasse no volume máximo nas madrugadas, batesse palmas paras as crianças na rua. Você deixou que eu caísse aos seus pés ao ouvir as suas teorias sobre livros, dramatizasse cada uma de nossas discussões, lambuzasse as suas coxas com brigadeiro feito em casa. Agora você deve estar sentada em frente ao seu piano, comendo os doces da minha festa de aniversário, tentando acreditar que fui capaz de simplesmente desaparecer. Sou capaz de ouvir a sua voz dizendo "Vem logo, vem, o gosto do brigadeiro já não é mais o mesmo sem você". Mas eu já disse que não sou como os outros. A felicidade não me atrai. E, além do mais, eu não gosto de doce. Sempre preferi o amargo.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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Segunda-feira, Novembro 25, 2002
A frase em negrito foi enviada por Radociou
Os números vermelhos do relógio avisam que é hora você acordar. A sua silhueta descansa perto de meu ombro e pede para que eu deixe você dormindo mais alguns minutos. Ou é apenas o meu desejo de vê-la sem máscara, medo e insegurança que me impede de balançar o seu corpo suavemente. Mas os seus olhos abrem de repente. E não diz bom dia, não olha para mim. Sai da cama com cuidado para não tirar o lençol do lugar. Ignora a minha presença de forma hábil, como se pensasse que ainda estou dormindo. Ouço o barulho do chuveiro, da toalha secando os seus cabelos, da escova de dentes movimentando-se dentro de sua boca. Você aparece na porta do quarto. Quando finalmente olha para mim, percebo que está vestida com a sua mácara, com o seu medo, com a sua insegurança. Você fala "Adeus", e é impossível não acreditar no que sente. E então viro o meu corpo para o lado. A porta de casa se fecha. E não ouço o barulho das chaves girando. Sim, você deixou as suas cópia aqui. Já está na minha hora, eu sei. Mas não quero me levantar hoje porque o dia amanheceu cedo demais.
Leia também o parágrafo da Menina do Didentro.
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